Expediente:

Escrito e editado por Petter Baiestorf.
Digitado e diagramado por Elio Copini.
Janeiro de 2003.

Dedicado à minha ex-namorada.

Obrigado à minha mãe Iara, Elio Copini, Cesar Souza, Carli Bortolanza e Dudu pela força! Vocês ajudaram numa recuperação mais rápida!

Introdução:

Em junho de 2002, enquanto eu estava dirigindo o curta marginal "Não Há Encenação Hoje", re-encontrei uma amiga dos tempos de colégio e, após ela dar em cima de mim, acabamos ficando juntos. Logo fiquei apaixonado por ela e tudo parecia ir bem: ela parecia gostar de mim, o filho dela simpatizou comigo e a família era maravilhosa quando eu os visitava!

Mas como a paixão é o maior tormento dos homens, no dia 23 de dezembro ela chegou prá mim e disse que estava tudo acabado (podem rir sim, pois a mulher tinha um senso de humor bizarro!). E só!!! Fiquei parado com minha cara de bobo vendo ela ir embora. E chorei no dia 23, no dia 24 e ao acordar no dia 25. E só!!!

E como sou um escritor da espécie que escreve sobre sí próprio, resolvi transformar esse meu relacionamento em matéria-prima para muito material sobre o amor, um tema constante em minha obra. Este relacionamento concluído de forma abrupta servirá de inspiração para o capítulo "Dentro do Coração de um Freak" do livro "Do Abismo da Alma Humana ao Caos" que estou escrevendo; para o longa-metragem em vídeo "Oldenburgo: Delírios Amorosos De Um Canibal Faminto" que estou elaborando como cine-experiência no melhor estilo Kanibaru Sinema; e já serviu para este fanzine especial que você tem em mãos. Sim, sei que parece piegas... Mas e daí? ... O amor é isso mesmo: um poderoso instrumento de tortura psicológica a serviço dos sádicos!

Apesar de que, pensando agora já bem mais calmo, acho que me livrei de uma chatice das grandes; essa mulher maravilhosa que amei desesperadamente só se preocupa com status social, com dinheiro e consigo própria, ou seja, tudo aquilo que acho de mais lamentável num ser humano... Sei lá, mas me convenci de que nosso relacionamento nunca iria dar certo!!!

Seja como for, ainda gosto dela... Não aquela paixão extraordinariamente forte do tempo que ficamos juntos, mas sim um carinho especial misto de amizade e pena por saber que ela nunca será feliz enquanto continuar afastando a pontapés todos os que a amam!!!

Bem, então motivado pelo fim de nosso romance, escrevi este texto baseado em nossa relação e que agora torno público. Tomei uma ou duas liberdades poéticas para deixar o texto mais interessantee próximo do universo das personagens Baiestorfianas.

Enfim, espero que se divirtam com meu sofrimento, arranquei-o do fundo de minhas entranhas!!!

Baiestorf'2003.


Um Treponema Pallidum Mutante Atrapalhando A Vida Amorosa de Um Xanthorrhoea Australis Apaixonado.
(escrito por Petter Baiestorf nos dias 22 e 23 de dezembro de 2002)

I. Echinocereus Grusoni e Opuntia, duas formas comuns do deserto infinito que cercava a Cidade dos Canibais, observavam a euforia contagiante do senhor Xanthorrhoea Australis que finalmente havia conquistado o coração de sua amada Welwitschia Mirabilis, a musa que povoava os sonhos eróticos de praticamente todos os habitantes do imenso deserto. Xanthorrhoea sentia que amava com sinceridade a famosa musa de longas folhas com franjinhas muito bem cuidadas nas pontas. Gritava versos poéticos para quem quisesse ouví-lo falar de amor. Dizia a todos que iria se banhar no néctar do amor e definia néctar do amor como lágrimas, suor, saliva, fluídos vaginais lúbricos, urina, sangue e fezes da amada. E Welwitschia retribuía o amor que recebia. E tudo teria sido uma fabulosa história de amor se o Pastor Syphilus não tivesse bebido fleuma de maneira exagerada no jardim tomado por Helianthus Annuus. Syphilus bebia enlouquecido porque os deuses recusaram-se a torná-lo um inseto díptero com aparelho bucal pungitivo. Bebia também porque recentemente havia descoberto que era portador do raríssimo Treponema Pallidum Mutante, um espiroqueta ativamente móvel, delicado e de fino trato, cujo corpo havia ficado verde e agora possuía uma probóscoide longae flexível, formando numa de suas extremidades uma pequena anomalia de curiosidade ímpar, ou seja, uma mistura de Treponema Pallidum com o formato de uma Bonellia Viridis. Completamente louco, esbravejando palavrões contra os deuses, o Pastor Syphilus avistou o apaixonado Xanthorrhoea e, colocando seu pênis duro de aparência litóide para fora das calças, estuprou o grosso tronco do senhor Xanthorrhoea, escandalizando a sensível Vallisneria Spirallis com a violência gratuita de sua fúria sexual. Após o gozo infectado de milhares de Treponemas Pallidus Mutantes, o pastor Syphilus guardou seu membro dentro das calças e, devorando os frutos de um Opuntia Ficus Indica, foi se afastando do Xanthorrhoea desmoralizado à procura de outros Polizóicos como ele, pois já estava cansado de ser um bêbado solitário. Echinocereus Grusoni e seu amigo Opuntia Erinacea se entristeceram com o choro descontrolado do senhor Xanthorrhoea, agora infectado e que cujas lesões primárias, todos sabiam, iriam começar a se manifestar dentro de uns dias. Xanthorrhoea também sabia que essa maligna infecção iria afastar dele a musa Welwitschia, já que a partir deste momento não poderia mais se relacionar carnalmente com ela. No seu interior os Espiroquetas se moviam pelos vasos linfáticos. Catervas de Espiroquetas infectando toda a inocência do pacífico senhor Xanthorrhoea, que naquele momento olhou para o horizonte e enxugou suas lágrimas ao reparar que um bilhão de Nocticulas Scintillans flutuavam rumo ao céu. Sensibilizadas pelos atos desenrolados em terra, resolveram que era hora de abandonar os oceanos e disputar o universo com asestrelas. A guerra estava declarada, o caos ectrótico de boas ações começava a tomar forma e planejava conspurcar a estrutura de todas as coisasjá catalogadas e de tantas outras completamente desconhecidas.

II. O vento fazia com que a areia do imenso-infinito deserto que cercava a Cidade dos Canibais rodopiasse no ar, criando uma espécie de balé para sereno para se apreciar numa tarde de nostalgia. Pápulas de pus haviam tomado conta do caule do senhor Xanthorrhoea Australis . A psoríase ingüinal incomodava-º Recidivas mucocutâneas infecciosas se manifestavam por todo seu corpo. Xanthorrhoea estava mudado, havia se tornado uma criatura pessimista ao extremo. E tudo só piorava. Xanthorrhoea era alérgico a penicilina e o estearato de eitromicina não havia feito melhora alguma. E o pior, sua musa amada quando soube da doença adquirida, se afastou. Paranão parecer preconceituosa, Welwitschia Mirabilis começou a fazer faculdade numa duna vizinha e disse para o desgraçado Xanthorrhoea que ele não tinha mais tempo para ele e para sepultar de vez as esperanças, acusou-o de ser muito crítico. Poderiam ainda serem bons amigos, disse ela com um sorriso amarelo nos lábios enquanto tratava de fugir da vida de Xanthorrhoea. Sem perspectivas de curar sua moléstia, Xanthorrhoea conheceu o químico Albert Hoffmann e sua maravilha descoberta, o LSD 25. Este ácido é o núcleo químico comum aos alcalóides do fungo de centeio, também conhecido como Claviceps Purpureus, um parasita boa-vida que suga as posses dos caules das gramíneas de classe-média. As viagens lisérgicas ajudavam-no a esquecer da doença e, principalmente, esquecer Welwitschia. Além do LSD 25, Xanthorrhoea tornou-se dependente da Mescalina extraída do Lophophora Williamsi, da Psilocibina extraída do fungo Stropharia Cubensis, da Teonanacalt Carne de Deus e sua polpa de substâncias mágias que lhe causavam sensações visuais extasiante. Por essa época também experimentou todos os derivados da Papaver Somniferum a que teve acesso graças ao seu amiguinho maluco, Doutor Hoffmann. Com o corpo apodrecendo e sua amada longe, o senhor Xanthorrhoea precisava manter seu cérebro ocupado para não sentir a dor física e emocional que o dominaram ao mesmo tempo. Seu cérebro trabalhava o tempo todo, estava já a três meses sem dormir. O uso das substâncias alucinógenas ajudavam-no a enganar seu cérebro crítico em demasia, segundo sua musa. Cérebro esse irrigado por milhões de vasos sangüíneos bastante complexos que lhe fornecem continuamente glicose e oxigênio consumidos por suas células. Normalmente outras substâncias não chegam até os tecidos naturais porque são impedidas por uma barreira natural que, vejam só, não consegue barrar as substâncias psicotrópicas tão necessárias para que Xanthorrhoea esquecesse do mundo. Talvez ele estava tentando, inconscientemente, destruir todos os seus neurônios para acabar com a produção do complicado processo metabólico que, como resultado final, se apresentava sob a forma da razão, consciência e percepção. Para o sarcástico Doutor Hoffmann, o senhor Xanthorrhoea e todos os estúpidos animálculos em geral eram eqüiponderantes em suas pesquisas. Xanthorrhoea, num pequeno momento de lucidez, olhava a batalha celestial que as Nocticulas Scintillans estavam travando com as estrelas para dominar o universo. O brilho intenso da batalha produzia no deserto um pôr do sol amarelado e fazia com que todos os habitantes se perdessem em seus devaneios solitários.

III. Nuvens negras anunciavam uma tempestade de neve gelatinosa para os habitantes do deserto. O senhor Xanthorrhoea Australis, já acostumado com sua condição de ser eterno perdedor social, se divertia olhando os incríveis Anelídeos que lhe sugavam o vurmo de suas feridas pestilentas. Suas veias mesentéricas haviam começado a cantar uma suave canção para anunciar o retorno do Doutor Hoffmann que, já faziam vinte e oito dias, havia partido para a Cidade dos Canibais em busca de seu colega Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim que estava tratando casos de Syphilis Sive Morbus Gallicus com mercúrio, um metal que ele conhecia de suas experiências com alquimia. Hoffmann e Von Hohenheim chegaram até Xanthorrhoea no mesmo instante que os primeiros cubos de neve gelatinosa caíam das nuvens negras cheias de fúria e raiva acumuladas. Von Hohenheim, tão logo colocou seus olhos de vidro no paciente, já aplicou também a primeira dose de mercúrio nas feridas. O grau avançado das purulências causadas pelo Treponema Pallidum faziam necessária uma cirurgia urgente. Von Hohenheim mandou Hoffman aplicar uma dose extra de LSD 25 e, coçando sua enorme barriga de bebedor de cerveja boêmio, cantarolou “Cortar o que é mole, serrar o que é duro, ligar o que está sangrando. A beleza da enérgica simplicidade; já diria meu companheiro de copo Maistre Barbier Chirurgien Ambroise Paré”. E colocou-se a cortar, serrar, ligar, amputar e desmembrar os tumores do senhor Xanthorrhoea, que neste momento estava completamente absorvido pelos delírios do fantástico LSD 25. Por toda a extensão de seu mesocéfalo seus delírios tomavam a forma de visões extremamente pessoais. Seu encéfalo, principalmente a região onde se encontra o bulbo raquidiano, se emocionava com uma Welwitschia distorcida. Em seus delírios compostos de cores desbotadas berrantes, ele sentia desespero indescritível de um lucíola que padecia de limoctônia e percebia o quanto sua musa Welwitschia se divertia com o sofrimento alheio. Delirava com o fato de que após a cirurgia de Von Hohenheim ele iria se tornar um viciado hipospado e gargalhava solitário ao perceber que haviam criaturas mais infelizes do que ele, como StegomyiaFasciata com o ferrão em forma de saca-rolhas, ou como o Palaemonetas Serratus atacado por Miosite Clostridias, ou ainda, como a lendária Lampetra Fluviatilis e seus folículos pilosos tomados por milhares de Demodex Folliculorum. Todos esses amaldiçoados pela natureza sofriam muito mais do que ele. As nuvens negras haviam sumido, a neve gelatinosa começava derreter, vários Buthus Occitanus bebiam chopp acompanhados de suas respectivas Latrodectus Mactans maliciosas e Von Hohenheim lavava suas mãos, a cirurgia estava concluída e parte dos problemas do senhor Xanthorrhoea resolvidos. Duas semans após a operação, Doutor Hoffmann e Von Hohenheim chegaram a ilação de que o paciente estava completamente recuperado. Echinocereus Grusoni e Opuntia Erinacea sorriam pela melhora do amigo. Xanthorrhoea correu até a musa Welwitschia para contar a novidade, mas quando seus olhares se cruzaram ele pensou que seria melhor ficar calado. Apenas disse a Welwitschia que ela devia parar de fazer as criaturas se apaixonarem por ela para depois abandoná-los somente acompanhados por seus temores e fraquezas. Amar era o pior dos sentimentos para um perdedor nato como ele e que agora havia aprendido a lição e, pensava, nunca mais iria se apaixonar novamente. Iria se tornar um peregrino sem destino e tão logo acabou de dizer essas palavras que vinham completamente sinceras de seus neurônios, virou-se de costas para sua amada e partiu para lugar algum. Chorando pelo amor destruído, olhou para o céu e percebeu que as Nocticulas Scintillans estavam retornando, derrotadas em suas batalhas pela posse do universo, para os oceanos. Percebeu que à sua volta só haviam perdedores sociais, então resolveu sentar-se no jardim das Helianthus Annuus onde iria permanecer por duas dezenas de horas, pensando em como unir todos esses perdedores e construir um novo sistema social. Sim, o senhor Xanthorrhrroea iria manter seus neurônios ocupados, começava perceber que os derrotados poderiam, enfim, criar o tão almejado caos ectrótico de boas ações tão almejado pelas Nocticulas Scintillans. Um senhor Xanthorrhoea revolucionário acabava de nascer.

Uma Madrugada Como Outra Qualquer:

O calor animava os mosquitos em suas buscas pelo alimento
Delicioso que corre nas veias do poeta desesperado por amor.
Os mosquitos perfuravam a epiderme do poeta apaixonado e
Sugavam litros do doce sangue.
O poeta só pensava em sua musa e esquecia-se de tudo
Que acontecia ao seu redor.
Porcos cegos assistiam este episódio da vida do poeta e
Gargalhavam, comentando o quanto achavam-no patético.
A musa já não agüentava mais as lamentações de amor de
Seu babaca amado, arrependia-se terrivelmente do dia em
Que correu atrás dele.
Hienas risonhas resolveram acabar com o tormento:
Raptaram o poeta apaixonado e o jogaram num abismo.
Pronto,
Agora tudo voltava ao normal
E o poeta nunca mais sofrerá de insônia !!!

Sobre O Autor:

Petter Baiestorf nasceu dia 13 de novembro de 1974 (mesmo dia da morte de Vittorio de Sica). Cresceu na Vila de Oldenburgo entre-meio a agricultores, pescadores, plantações de marrecos e louva-deus verdes. Aos 3 anos caiu dentro de um poço e bateu a cabeça contra uma arca amarelada, e então, chorou pela primeira vez. Com 9 anos tentava namorar com uma fadinha de 150 quilos. Aos 16 partiu com um barco viking em busca das raríssimas sereias lésbicas de rabos vermelhos da Patagônia; Três anos depois, ele e seus companheiros, retornaram à Oldenburgo com o fracasso tatuado em suas faces. Aos 20 anos começou a escrever influenciado pelo japonês louco que vivia no porão de seu cérebro. À noite, bêbados, eles gostavam de comer vidro mastigando de boca aberta. Com sua escrita se tornando cada vez mais verborrágica e automática, fundou o país Kanibaru que fica na região leste de Cannibal City. Ao mesmo tempo resolveu se apaixonar profundamente por uma brasileira que insiste em dizer que é alemã (a mesma mulher que ele dedicou este fanzine que você tem em mãos). Atualmente ele gosta de sentar na chuva, ficar olhando num espelho molhado, rindo de sua cara de hiena. Ele nunca acreditou em arco-íris !!! Ele sempre acreditou que as gerações futuras irão se alimentar de esperma pasteurizado !!! E aos 6 anos já sabia que era um ateu !!!

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