NÃO QUERO UM POUCO DE SANGUE,
QUERO UM BALDE CHEIO
Carli Bortolanza (1) e Petter Baiestorf
Vou visitar um amigo, oitavo andar, olho na sacada e o que vejo? Um cara parado, fazendo bocas e caras de desespero, na frente de um fundo azul e um ventilador mexendo suas roupas. Meu amigo, o diretor da cena descrita, sorri satisfeito e diz "vou retocar a cena com efeitos digitais!!!". Penso onde esta aquele boneco feito de espuma, com articulações dobráveis, para ser atirado do prédio?
Onde está a arte artesanal? Cadê os seres pensantes que outrora exercitavam o cérebro e vomitavam criatividade? Será que só pensam se, no meio, estiver a possibilidade de desviar milhões dos cofres públicos? Caralho caralhudo, chega de gastar rios de dinheiro para viabilizar efeitinhos digitais e ter animaçõezinhas de terceira, falsas e lustrosas criaturas que não suam e carecem de vida!!! Quero ver efeitos sujos, pegajosos, melequentos e transbordando de culhões! Quero ver erva-mate, farinha, farelo de rosca, goma laca, papel machê e látex caseiro!!! Isso mesmo, aquele látex caríssimo dá prá fazer em casa!!! Pois crie as condições para descobrir como realizar maquiagens eficientes e baratas ... Experimente!!! Seja um ousado criativo... Látex caseiro?
Látex caseiro: água morna, gelatina em pó e criatividade!!! Bom, barato e satisfatório. Tóxico nem pensar, pelo contrário, comestível. E se os atores não ficarem de frescura na hora da maquiagem, faça um pouco mais e dê para eles comerem, e o produtor fica feliz porque nem precisará alimentar o gado, ops ... os atores!!!
Pensar dói? Século XXI, o século
em que as máquinas farão o trabalho intelectual para os homens? Cuidado!!! Muito
cuidado!!! Tela de computador diminui o cérebro, telefone celular derrete a
massa pensante, televisão suga a vontade de ser criativo e cinemão de Hollywood
é o atestado da regressão da humanidade!!!
Nota:
1 - Carli Bortolanza, nascido em 1978, é maquiador na Canibal Filmes e diretor
dos curtas "Homenagem" (1998) e "Fodendo meu Vitelo" (1998). Em 1997 foi co-fundador
da Caos Filmes, tendo co-produzido vários curtas experimentais desde então.
Também é poeta e acadêmico de filosofia. (nota de P. B.).