O CAOS DE UM VIDEASTA Parte Dois (1)
Petter Baiestorf
A pergunta me persegue até agora.
Os vitoriosos foram quem? Super Chacrinha ou Glauber Rocha? Os dois venceram
a dura caminhada que dava direito a longa subida rumo a qualquer montanha gigantesca.
Personagens únicos dos acontecimentos que até agora me perseguem em devaneios
perpétuos. Algo sussurra em meu cérebro que este tal de Super Chacrinha e seu
Amigo Ultra-Shit em Crise Vs. Deus e o Diabo na Terra de Glauber Rocha" eu nunca
deveria ter acabado. Minha infelicidade, minha neurose toma força com a peça
acabada. Meu estômago diluiu Glauber e Sganzerla agindo como um primata canibal.
A veracidade dos fatos é grande, não permitindo sua inclusão na história sempre
deturpada. Canso. Acho que brincarei mais um pouco. "Do Abismo da Alma Humana
ao Caos" vai ser minha nova caixa de areia, depois vou caminhar pelo deserto
sem rumo certo. Saara vai se render a minha sombra. Se render a minha lente
desgraçada, suja, tremida, desfocada e extremamente amadora da miséria. Isso
vai ser legal. Eu e minha lente num deserto transbordando em miséria e desgraça.
Saara vai me obrigar a criar "Do Abismo da Alma Humana ao Caos" com gritos histéricos
matinais, meus gritos que servem de consolação a minha equipe técnica ébria
que acorda sorrindo e dando graças ao acaso por estar inteira por mais um dia.
Minha loucura corrói apenas algumas engrenagens ainda, o resto já nem tá mais
ai com meus discursos metidos a besta. Mariposas ingratas, se o demônio dromedário
chegar até vocês torço para que a plumagem camufladora não funcione mais. Humanos
que temem ser diferentes. Criaturas criadas em série, desprovidas de sonhos.
Sonhos já nascidos mortos. Precisam ser/agir/não-pensar igualzinho a todos os
outros homens-vegetais largados por ai no mundo. Os ignorantes serão os primeiros
a saciar minha fome, num manjar onde apenas os famintos conseguem comer e beber
gargalhando. Super Viola é que estava coberto de razão. Devíamos ter ficado
bebendo naquela bôdega sem nome, apagada, tão apagada quanto nossos rastros
esquecidos para trás. Perdemos a oportunidade, perdemos "inté" o Super Viola
e seu companheiro Marcírio Pagodeiro que arrancava risadas dos mais miseráveis
desprovidos de sonhos e anseios, apenas vegetais em minha mini-horda de técnicos
bebedores de cerveja. Mas não tem importância, acho que todos os perdedores
vão pegar o bonde no dia em que a Terra parar. E aí, bem aí mesmo, no centro
da paralização, vou tossir sangue e com meu "Do Abismo da Alma Humana ao Caos"
debaixo do braço, vou ficar cantando lamúrias aos inocentes perdidos. Saara
vai me queimar, vai me fazer delirar e nunca mais vou criar nada aos civilizados.
Sozinho, minha próxima parada vai ser o Amazonas, onde beberei chá com os índios
e dançarei temas selvagens que urrem sobre minha vida medíocre.
Nota:
1 - Escrito após a finalização da edição do longa "Super Chacrinha e seu Amigo
Ultra-Shit em Crise Vs. Deus e o Diabo na Terra de Glauber Rocha" (1997). (nota
de P.B.).