NORDESTERN E O TRIUNFO DO CINEMA NACIONAL
Cesar Souza
Brasil: final dos anos 20 -
Sertão nordestino. Miséria, abandono, desmando do governo, vingança, assaltos,
raptos, xotes, tiros, fugas, estupros, forrós, lutas, mulheres valentes, cabras-machos,
traição, mortes, muitas mortes ... Terra selvagem onde a lei era a bala e a
pexeira. Ó xente!! Virgulino Ferreira "Lampião" da Silva ama Maria "Bonita"
Gomes de Oliveira; Corisco "Diabo Loiro" ama Maria "Dadá"; a gente arretada
da caatinga ama/odeia o bando. O tenente Rufino faz da caça aos bandidos sua
vida; Benjamim "Libanês" Abrahão (2), faz o seu ganha pão e sua arte ao fotografá-los
e filma-los. Perpetua o mito em celulóide. Genuíno épico brasileiro de aventura.
Sertão de sangue. Vida-sangue-amor-morte. Não no deserto americano. Não western.
Brasil. Cangaço. Nosso NORDESTERN. Juazeiro, Padre Cícero, Angico, Sergipe-emboscadas,
chacinas-cabeças decepadas.
Brasil: anos 60 - Ciclo de filmes sobre o cangaço. Sucesso de público com nossos
heróis-bandidos. Nas telas Vanja Orico, Milton Ribeiro, Alberto Ruschel, Mauricio
do Valle, Zé Trindade, Wilza Carla e até Renato Aragão e Dedé Santana, cangaceiros
do Diabo, Sem Deus, Sanguinários, Eróticos, Trapalhões ... Deus e o Dragão da
Maldade Contra o Diabo e o Santo Guerreiro na Terra do Sol. E do pouco dinheiro.
E da fome, cabra macho sim sinhô!! Prá que Robin Wood, Billy the Kid, Jane Calamidade,
Bonnie & Clyde, se temos Lampião e Maria Bonita. Sucesso internacional de "O
Cangaceiro". Belas cenas de coragem, paixão e violência. Os historiadores contestam:
a história não era bem assim ... Nunca é. O mito é melhor. A fantasia é que
fica. Torcemos para os cangaceiros fugirem dos "macacos" (Volantes). Lima Barreto
- diretor de "O Cangaceiro" premiado no Festival Internacional de Cannes, morreu
pobre, doente em um asilo de velhos. Desmandos do governo, miséria, abandono.
O Brasil continua o mesmo. O cinema é que está mais pobre de imaginação e emoção.
A fantasia é melhor, Bang-Bang!! Olê mulé rendera, olê mulé rendá, tu me ensina
a fazê renda, que eu tê ensino a namorá... O difíciu é ensiná, a fazê Cinemá
...
Brasil: anos 60/70 - Quadrilátero do Bairro da Luz, formado pelas ruas do Triunfo
e Vitória, centro pobre de São Paulo. Em meio a prostitutas, travestis e botecos,
emergiu a Hollywood Brasileira! A Boca do Lixo (3). Boca pobre independente,
autenticamente nacional, que chupa, suga o melhor do imaginário visual e cinematográfico
universal, para vomitá-lo, devidamente digerido em enzimas nativas, em fotogramas
únicos, lúdicos, cheios de deboche, tesão, fusão popular. Boca popular ... ou
ex-Boca ... ex popular??? Agora tem Faustão, Grandes-irmãos e bundões siliconados
rebolando na TV ... Cinema prá que?? Prá fazê novela, programa infantil e programa
de humor em tela grande??? (4) Cadê nossos filmes de cangaceiros, nossos filmes
policiais, de terror, cadê as sátiras aos filmões de Róliude?? Cadê Chumbinho?
E o negão Satã, hein? E a Wilza Carla já morreu? Ela foi nossa Divine. E com
a big-vantagem que Wilzona tinha xereca, big-xereca. A Rua do Triunfo foi nossa
calçada da fama, ou da má-fama ... David Cardoso, ex-garanhão, galã e sucesso
de bilheteria virou crente e um velho maluco e ranzinza que fica chorando em
programas sensacionalistas ... Cadê o tio Maneco, o melhor e mais inteligente
personagem infantil do cinema brazucóide?? Ody Fraga já foi pro beleléu, ...
Costinha também ... e o Rogério "Luz Vermelha" Sganzerla idem ... O Jairo Ferreira
que a todos entendia apagou sua luz também ... a coisa anda mal ... Vocês querem
"Bacalhau" ??? - O filme? (5) Não se acha nem garimpando nas videolocadoras.
Mas juro é muito mais divertido do que os Tubarões da vida ... Oôôô. Senhorita,
não tem filme brasileiro divertido, aqui não?? Ahhhh, só drama milionário e
Trapalhões e Xuxa Se Quebra Toda... ah, valeu ... Cadê o espírito inventivo,
popular e bagaceiro do nosso povo??? O gato comeu. Cadê o gato? O povo morto
de fome comeu como churrasquinho na saída do "Futibol" ... É , nem antropofágicos
somos mais ... Viva a Boca (agora desdentada) do Lixo!!!
Notas:
1- Este texto é uma junção dos textos " O Triunfo do Cinema Nacional" e "Nordestern
- O Cangaço no Cinema", originalmente publicados no Zine "Brazilian Trash Cinema"
números 1 e 3, maio de 2000 e junho de 2001, respectivamente. (nota de P. B.);
2- Sobre Benjamin Abrahão, sugiro que assistam o ótimo filme "O Baile Perfumado"
(1996) de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. (nota de P. B.);
3- Sobre a Boca do Lixo e seu espírito transgressor, ousado, e independente,
sugiro a leitura dos livros "Cinema de Invenção" de Jairo Ferreira, "Cinema
Marginal - A Representação Em Seu Limite" de Fernão Ramos, "O Vôo dos Anjos"
de Jean-Claude Bernardet e "Maldito - A Vida e o Cinema de José Mojica Marins",
escrito a quatro mãos por André Barcinski e Ivan Finotti. Outra obra complementar
sobre este estado de espírito contestador do cinema nacional é "Ivampirismo
- O Cinema em Pânico" de Ivan Cardoso e R. F. Lucchetti. (nota de P. B.);
4- Sobre este assunto, filmes para cinema que parecem especiais luxuosos da
TV brasileira, sugiro a leitura do artigo "Publicidade e TV Versus Cinema",
escrito pelo cineasta Luiz Rosemberg Filho e publicado no jornal cultural "O
Boêmio" nº 199, do dia 19.12.2003, distribuido na região de Matão (SP). (nota
de P. B.);
5- "Bacalhau", direção de Adriano Stuart e estrelado por Dionízio Azevedo, Helena
Ramos, Helio Souto, Marlene França, Maurício do Valle e ainda o próprio diretor
interpretando um oceanógrafo de Lisboa especialista no peixe bacalhau da guiné.
"Bacalhau" é uma divertida sátira ao "Tubarão" de Spielberg, no melhor estilo
de improvisações Boca do Lixo. (nota de P. B.).