KANIBARU SINEMA
(Ou Métodos Para Fazer Filmes Sem Dinheiro)
Petter Baiestorf
Você não precisa ser mais um
capacho do sistema se agora já pode ser um messias do caos com a missão de destruir
os valores sagrados do cinema milionário que estão implantando no Brasil!!!
O fazedor de filmes alucinados, que não está contente com os rumos do cinema
brasileiro, lhes dá aqui algumas dicas básicas de como produzir sua obra sem
utilizar-se do tal de dinheiro:
FIGURINOS: Pegue-os nas campanhas de arrecadação de roupas para pobres (de preferência
nas campanhas do inverno, quando as roupas são melhores). Peça roupas velhas
aos parentes e amigos. Roube uniformes militares nos quartéis (os recrutas costumam
negociar apetrechos militares por um precinho bem camarada). Faça seus figurinos
exclusivos utilizando-se de lixo, como plásticos, latas, restos de tecidos,
cascas de árvores, etc ... Se for o caso, coloque seus atores interpretando
pelados.
CENÁRIOS/LOCAÇÕES: Ache coisas velhas no lixo/ferros-velhos e crie artefatos
futuristas. Utilize a casa dos amigos. Consiga um porão úmido abandonado e dê
vida ao mundo que habita seu cérebro. Filme em locais públicos, como ruas, calçadas,
matas, praias, praças, reservas florestais, casas destruídas/abandonadas, desertos,
prédios públicos, parques de diversão, shoppings, puteiros, desfiles patrióticos,
cemitérios, etc ... (Mas se você gostar de alguma propriedade privada você pode
invadir e quando a polícia chegar diga que achou que o local era público ou
inicie uma discussão com a polícia dizendo que "Toda propriedade é um roubo",
ser preso ajuda na divulgação de sua obra!).
ILUMINAÇÃO: Filme durante o dia, aproveitando a luz solar que é de graça. Se
necessitar de cenas internas e/ou noturnas, ilumine com luz normal. Você ainda
pode utilizar-se de liquinhos, tochas, velas, luzes de carro, etc ... O importante
é criar uma fotografia diferente/estranha.
PESSOAL/ELENCO: Utilize seus amigos e freaks em geral. Punks, putas, aleijados
reais e mendigos são uma ótima opção, mas guarde uma parte de seu orçamento
para pagar a eles um cachê, mesmo que simbólico (1). Certifique-se antes de
que seus atores improvisados e amigos tenham idéias ideológicas parecidas com
as suas, caso contrário eles acabam atrapalhando mais do que ajudam (mas mesmo
assim você pode utiliza-los como figurantes).
EQUIPE-TÉCNICA: Faça você mesmo tudo, assim o filme sai do jeito que você quer.
ROTEIRO: Crie sempre histórias originais com críticas sociais, mesmo que suas
histórias sejam um tanto excêntricas. Lembre-se sempre que a igreja, o governo,
os militares, os religiosos em geral, os modistas, etc, estão ai para serem
esculhambados. Importante, as vezes a criação de um roteiro coletivo, com idéias
de todo elenco, pode ser inspirador para interpretações mais viscerais, primitivas
e raivosas.
EQUIPAMENTOS: Utilize qualquer tipo de câmera. Se você não tiver uma, arranje
emprestado ou, ainda, você pode roubar uma. Para editar seu filme há várias
opções que não envolvem dinheiro, como editar tudo com dois vídeos caseiros
comuns (se arranjar dois vídeos super VHS, melhor!) ou editar na própria câmera
(filmando as seqüências de forma linear) na hora real da filmagem e depois incluir
a trilha sonora pela dublagem de áudio da filmadora. Sem esquecer nunca que
placas de edição por computadores estão cada vez mais baratas! Sua mensagem
é o que importa, qualidade é coisa de cara reprimido!!!
ORÇAMENTO: Produza com o que você tiver a disposição. Poupe seu salário, faça
vaquinha entre seus amigos, venda rifas, sejam criativo e se surpreenda. Falta
de dinheiro nunca foi empecilho na vida artística dos gênios!!! (2)
TRILHA SONORA: Dê preferência a bandas e músicos ainda não cooptados pelo mercado
capitalista. Discos velhos podem conter músicas maravilhosas completamente esquecidas.
Pegue um instrumento e grave ruídos estranhos com ele e encaixe no seu filme.
Músicas estranhas, regionais, experimentais e não comerciais (como gore grind,
industrial harsh ou noise) sempre dão um clima ótimo!!!
DIVULGAÇÃO: Pode, e deve, ser feita através de fanzines, flyers, revistas e
jornais undergrounds e independentes. Esqueça a internet, ali você só vai encontrar
pessoas interessadas no tipo de filme que estiver na moda no momento. (3)
DISTRIBUIÇÃO: A distribuição de cópias em VHS/DVD/VCD pode ser feita utilizando-se
os serviços dos correios. Você também pode realizar exibições em botecos e shows
alternativos anti-comerciais de todo o Brasil.
FESTIVAIS: Cada produtor de filmes pode optar por produzir seu próprio festival
de filmes, sempre não competitivos (a competição é um vício da sociedade capitalista
que deve ser evitado sempre!), fazendo assim um intercâmbio de produções amadoras
/ undergrounds / experimentais. Outra opção é a união de vários produtores undergrounds
na realização de mostras não competitivas em paralelo aos grandes festivais
de cinema, utilizando locais próximos d'onde acontece as babações d'ovos entre
os poderosos. Não se esqueça que os festivais de "cinema ruim oficial" estão
por aí para serem invadidos. Vá e esculhambe com os posudos!!!
Mas lembre-se que não ter equipamento não é desculpa para fazer filmes bobos
e ruins, com o mínimo de recursos você pode fazer bons filmes com uma produção
miseravelmente bem cuidada e original.
Notas:
1- Não acho correto se aproveitar de mendigos ou putas, que já sofrem com o
preconceito da sociedade e com a falta de estudos e oportunidades. Dar oportunidades
de trabalho para os excluídos sempre pode render ótimas surpresas, por exemplo,
Jörg Buttgereit ao realizar seu clássico "Nekromantik 2" (1991), revelou a ótima
atriz Monika M., agora uma ex-prostituta, que também estrelou o longa "Schramm"
(1995), outro experimento do alemão Buttgereit. (nota de P. B.);
2- No documentário "Mundo Basura" (1995), o videasta espanhol Sergio Blasco dá ótimas idéias, em ritmo de deboche total, sobre como conseguir dinheiro para produções independentes. E um ótimo livro, "Deathtripping - The Cinema Of Transgression" de Jack Sargent, sobre os filmes baratos de Nick Zedd e Richard Kern, revela em entrevistas bem divertidas, como estes dois batalhadores do cinema em Super oito de New York realizaram inúmeros filmes com o mínimo de dinheiro. (nota de P. B.).
3- Já tive experiências com grandes revistas e jornais ao conceder entrevistas para "Isto É", "Folha de São Paulo", "O Estadão", entre outros veículos da imprensa oficial e, sempre, minhas idéias foram completamente deturpadas/modificadas. Fanzines são o veículo mais fiel a divulgação de obras independentes. (nota de P. B.).