Metal, Gore & Filmes - Diretor Brasileiro Revoluciona O Cinema Underground:

Por: Fernando Souza Filho (Rock Brigade Nº168/Julho-2000)

Você já ouviu falar de Ed Wood? Era um diretor de cinema norte-americano que fazia filmes B de baixo orçamento (e qualidade), tornando-se cult entre os cinéfilos fãs de trash movies. Pois nós temos o nosso Ed Wood no Brasil, porém, com duas grandes diferenças: os temas dos filmes são sempre splatter/gore e a trilha sonora envereda pelo death, grindcore, crust, hardcore e industrial. Estamos falando de PETTER BAIESTORF, um catarinense que já se tornou legendário entre fãs do cinema trash no Brasil e no exterior por causa de filmes como 'O Monstro Legume do Espaço', 'Eles Comem Sua Carne', 'Zombio' e 'Caquinha Superstar A Go Go'. Podreira e baixaria elevadas ao cubo, que podem tanto fazer você vomitar quanto morrer de rir. Os filmes são produções B no sentido literal da palavra, com cenas que divertem e causam repulsa. Não faltam pedaços de carne humana sendo devorados, comedores de fezes, zumbis que espirram pus e muita mulher pelada. É o underground do underground dos trash movies.

Com uma paixão irremediável por metal extremo e filmes de horror/ficção, Baiestorf descobriu cedo sua vocação pelo cinema splatter. "Desde pirralho que eu sou fascinado pela arte gore. Mas a paixão mesmo surgiu há cerca de 10 anos, quando assisti filmes como 'The Incredibile Melting Man' ('O Incrível Homem Que Derreteu') e 'O Último Mondo Cannibale', lembra o diretor.

A primeira produção veio em 92. "Era 'Lixo Cerebral Vindo de Outro Espaço', com Carcass e Cannibal Corpse na trilha sonora. Mas não conseguimos acabar as filmagens por pura incompetência", confessa ele. "Mas o que já estava filmado serviu como base para fazermos 'Criaturas Hediondas', em 93, o meu primeiro filme completo".

Naquela época, Baiestorf criou a Canibal Produções, que até hoje produz e distribui seus filmes. Na verdade, ele já usava esse nome para divulgar produções literárias gore que ele escrevia antes de começar a fazer filmes. "Em 93, começamos a fazer filmes e passei a cuidar sozinho da produtora", lembra. Três anos mais tarde, a produtora se uniu à Mabuse Produções, de Porto Alegre, mas o casamento só durou até 99. Agora, a Canibal está sozinha novamente e a idéia é distribuir também filmes de outros diretores gore do Brasil e de outros países.

Além das temáticas pútridas, a característica mais marcante dos filmes de Baiestorf é a trilha sonora. "Prefiro o som podreira, pois ele se encaixa bem nos filmes da Canibal. Mas sou eclético, pois cada cena tem um ritmo e um clima diferentes", afirma ele, que recebe com todo prazer, material de bandas brasileiras interessadas em estar em alguma das próximas trilhas sonoras.

Mas o forte mesmo da Canibal são as temáticas gore. 'O monstro Legume do Espaço', por exemplo, já se tornou um clássico do gênero, especialmente as cenas em que os atores comem fezes. "É gratificante ter feito um filme que é considerado clássico cult do gore nacional. Esse filme é de 95 e é bem trash, mas deu um trabalhão para realizá-lo. Mais de 25 pessoas trabalharam duro na produção, fazendo tudo sem grana alguma. Até hoje essa fita continua vendendo e vem sendo exibida em amostras underground do Brasil. Em alguns lugares, o público imita os personagens e repete os diálogos junto com o filme, tornando cada exibição uma festa", vibra. A repercussão foi tamanha que, seguindo a melhor tradição hollywoodiana, a segunda parte já está a caminho. "Era para ter feito a parte dois em 98, porém, por causa de falta de dinheiro, a idéia não saiu do papel. Mas acho que em 2002 a gente roda a segunda parte, pois em 2001 vamos lançar os quadrinhos do 'Monstro Legume do Espaço', que já estão sendo produzidos pelo desenhista Rodrigo Gagliardi. Também estou pensando em lançar a trilha sonora da segunda parte do filme em CD", planeja Baiestorf.

Outra Característica que o espectador mais atento vai detectar é o uso de cenas de outros filmes em determinadas películas, expediente que Ed Wood usava o tempo todo. "Na verdade, eu uso poucas cenas produzidas por outras pessoas, porém, quando o faço, é mais em forma de homenagem. As cenas de explosões no filme 'Arachnoterror', por exemplo, são tiradas de um filme do Zé do Caixão, que, por sua vez, as havia roubado de um filme árabe. Só reaproveito cenas tiradas de filmes do Zé do Caixão, Ed Wood, Joe D'Amato, Jesus Franco e outros grandes ladrões de cena do cinema. Isso é uma homenagem pessoal minha para eles, os verdadeiros pais dos artistas underground".

Em alguns casos, Baiestorf tira cenas de seus próprios filmes para utilizar em outros, também de sua autoria. É o caso de '2000 Anos Para Isso?', um curta composto por cenas gore do 'Eles Comem Sua Carne'. "Em 96, fui convidado para participar de uma mostra de filmes curtas gore que aconteceu em Gijón, Espanha, mas eu não tinha nenhum curta gore pronto. Peguei, então, aquelas cenas de desmembramento explícito do "Eles Comem Sua Carne' e as inscrevi no festival como sendo um curta. Os espanhóis adoraram!", garante.

Mais chocante que esse desmembramento humano só o acontecido com um boi em 'Boi Bom'. A diferença é que esse desmembramento foi verdadeiro! "Esse filme é o que chamo de gore primitivo, um caminho que pretendo seguir em minhas produções futuras. 'Boi Bom ' é chocante, porém, está carregado de simbolismos sobre a humanidade do homem-animal. O boi usado no filme foi morto de verdade". O quêêê?!?! Mataram um boi pra fazer o filme?!?! "Não. Uma churrascaria iria abatê-lo e nos avisou. Então, reuni a equipe e fui filmar o abate do bicho. Esse filme pode ser meio chocante quando exibido nas grandes cidades, porém, aqui no sul o churrasco e a bebedeira fazem parte da nossa cultura tradicionalista. Aqui, as pessoas não se chocam com o filme".

De qualquer modo, também têm forte influência regional os diálogos dos filmes, cheios de gírias ininteligíveis para o resto do país. "Eu adoro esse nosso sotaque todo errado e diferente. Estou pensando em legendar os próximos filmes para que o resto do país entenda algumas coisas que são faladas na gíria da região".

Para completar o cenário que se forma com o gore e o metal extremo, os filmes de Baiestorf sempre têm muita mulher pelada. "Eu adoro explorar a nudez feminina. Se pudesse, faria filmes com todas as atrizes nuas. O problema é que essa garotada anos 90 é muito politicamente correta, não curte muito esse tipo de erotismo". O diretor gosta tanto do tema que já fez filmes gore de sexo explícito, como "Sacanagens Bestiais Dos Arcanjos Fálicos'. "Misturei religião, deboche social e gore extremo no 'Sacanagens Bestiais', mas o filme não vendeu bem. O público não está preparado para algo assim, mas pornô tradicional não me interessa. De qualquer modo, gostaria de contratar atrizes pornôs para atuarem nos meus filmes, já que adoro as profissionais da pornografia. Queria realizar um filme gore com atrizes do pornô nacional". Isso não vai ser muito fácil, uma vez que cada produção da Canibal custa em média mil reais, ou seja, o valor de algumas horas de trabalho da maioria dessas atrizes. Para compensar, a Canibal agora também está distribuindo filmes de outros diretores gore. "Atualmente, estou trabalhando para distribuir filmes orientais, que são minha maior paixão. Mas, primeiro vou me concentrar nas produções nacionais".

Enquanto essa distribuição mais ampla não chega, Baiestorf já prepara sua nova película, intitulada 'Raiva'. "É um filme de ação gore, onde vamos até explodir um carro. É a história de três ladrões que roubam uma valiosa coleção de revistas, mas, na fuga, encontram fazendeiros infectados pelo vírus da raiva".

Sem dúvida, deve se tornar mais uma obra cult da filmografia splatter do legendário Petter Baiestorf. Perfeito para quem curte metal extremo, trash movies e baixarias em geral. Um conselho final importante: jamais assista aos filmes da Canibal antes do jantar. E nem depois.

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