Lucio Reis Entrevista Petter Baiestorf & Cesar "Coffin" Souza:

Por: Lucio Reis (Abril/Maio 2000)

LR - Conheci Petter em 1994, quando estava no auge da chamada "Trashmania", moda passageira como tantas aqui no Brasil. Lembro até que Corman esteve por aqui e se voltou a falar do Mojica. Já César conheci um ano depois, já em 95, durante a HorroCon, em Sampa. Como vocês vêem, hoje em dia, aquele momento?

PB - Pra minha produtora, que em 94 tinha apenas três filmes, foi importante. Financeiramente foi bom, pois meu filme "O Monstro Legume do Espaço", feito em 1995, vendeu muito bem. E serviu para eu conhecer meu sócio, César Souza (hoje ex-sócio, já que estamos fazendo produções de estilos diferentes e por produtoras diferentes), com quem fiz alguns bons filmes. A única coisa que lamento são os inúmeros caras/produtores/fanzineiros/etc... que abandonaram o gênero só porque a mídia não falou mais sobre a "onda trash".

CS - Trashmanias, Horrorconmanias, Maniamanias, que venham todas, e mais! Espaço para todos. Peneirando entre milhares de modistas eis que surgem os especialistas! Encontro de maníacos (e teimosos). Aproveitamos aqueles "quinze minutos" de fama e espaço para o Horror e Trash. Depois é a briga de sempre. Eterna e diária contra a maré da arte chata e conservadora.

LR - E atualmente, como está a situação do Horror no Brasil?

PB - Está um horror!!! (risos)... Desculpe, mas não resisti ao trocadilho!... A situação do Horror aqui no Brasil sempre foi muito delicada. Desde a época do Mojica (que nem considero cineasta de horror, mas um transgressor) até hoje em dia, em tempos da Canibal Produções (que também não considero horror, mas sim Gore de humor negro, deboche e transgressão). Poderia afirmar que aqui no Brasil nunca existiu uma cena concreta de Horror. Aliás, em matéria de cinema, nunca existiu nada concreto mesmo ...

CS - "The Real Horror". Nada se faz, tudo se repete. Persistência dos teimosos de sempre vs. os intelectuais-do-horror. Aqueles que discutem o sexo dos anjos e vampiros. Mojica virou um Chacrinha - Dark. Ivan Cardoso luta bravamente por patrocínio para os seus "terrires". Os independentes... ahh os independentes. Ou viraram cult-falidos ou faliram sem virar nada. Tá tudo muito light, diet, politicamente bostético. O país tá tão atrasado que a gente se acha à frente no país. Se não fosse sério, seria piada.

LR - Petter, você começou seus filmes de uma maneira bastante amadora, podemos dizer. Seus filmes deram um salto qualitativo importante em poucos anos. O que mudou em Petter Baiestorf nesse período? Compare o Baiestorf de 'Criaturas Hediondas' com o Baiestorf de 'Sacanagens Bestiais' e 'Zombio'.

PB - Meus primeiros filmes são uma merda. Técnicamente são medonhos, mas são a cara nua e crua de um país (Brasil) que não dá oportunidades pra ninguém. Eu aprendi tudo o que sei na marra. Errando, perdendo dinheiro, brigando com os hipócritas e servindo de saco de pancadas pra um monte de estudante de cinema que nunca fez nada. Cansa, mas estou atingindo os meus objetivos. Aprendi a ter o controle de uma produção, como vendê-la e fazer ela dar lucro. E estou influênciando uma porrada de caras novos a produzir seus próprios filmes. Queiram ou não, pessoas como eu e o Souza (e todo o pessoal da minha produtora) somos precursores de um novo estilo de se fazer filmes aqui no Brasil. E somente o tempo dirá isso. Tenho apenas uns oito anos de carreira e sou tratado como veterano... Pense no que poderei fazer em mais vinte anos de carreira e terei apenas quarenta e cinco anos de idade ... mas me desculpe ter fugido da resposta ... A diferença básica de um Baiestorf da época de Criaturas com os filmes que faz atualmente é a idade. Amadureci muito nos últimos anos. Antes eu era um guri de dezessete anos só querendo me divertir nos fins de semana. Hoje sou um cara que tá a fim de esculhambar, mas também ganhar grana pra poder fazer novas produções. Hoje quero uma qualidade técnica melhor (mas custando a mesma coisa dos meus filmes antigos) pra poder realizar meus banhos de sangue e sarcasmo. Aliás, uma das causas de eu e Souza termos nos separado é o aspecto técnico. Enquanto ele queria deixar tudo cada vez mais tôsco e experimental, eu tava a fim de deixar a parte técnica melhor. Hoje em dia eu tenho até um viajante revendendo meus filmes. A parte financeira é algo que me preocupa muito. Hoje já posso viver da minha arte, algo impossível até um ano atrás.

LR - E você, César? Fale um pouco dessa evolução. Quando assisti 'Gore Gore Gays' e 'Sacanagens Bestiais' percebi que eram filmes determinantes, e que após os dois, o trabalho de vocês não seria mais o mesmo. Foi, a meu ver, um ponto culminante e importante. Falem um pouco também sobre isso.

CS - No começo com a Canibal, era quase um revival para mim, que já havia participado do movimento super-oitista dos anos 80. Tinha experiência e conhecimento de causa e teoria para dividir. Era uma grande festa, apesar de trabalharmos juntos e duro! Já em 98/99 a coisa havia evoluído. Tínhamos uma pequena, mas treinada equipe/elenco. Já havíamos nos exercitado técnica e artísticamente . Tínhamos público. Era hora de soltar os bichos. Pôr pra fora o que sempre sonhamos (sonhos/sonhos molhados/pesadelos). Tivemos dois objetivos: transgredir, provocar até o nosso limite (e além) e conquistar e construir um mercado, um meio alternativo para exibir e comercializar o nosso trabalho para podermos produzir mais. As mudanças na economia do nosso paisinho, Terra Bras(z)ilis, erros nossos de percurso e a mentalidade atual inviabilizaram a concretização desses objetivos. Mas fizemos a nossa parte. E foi bom!!! Sem medo de dizer, para mim foram os melhores anos de minha vida... Mas ainda sonho em ir além do "Gore Gore Gays" e do "S.B.A.F.(Sacanagens Bestiais dos Arcanjos Fálicos)"... Quem sobreviver, assistirá! Resumindo: foi um ótimo começo parado no meio!

PB - Junto destes dois eu ainda incluiria "Boi Bom" (que eu fiz com o Jorge Timm) e "Deus - O Matador de Sementinhas" (que eu fiz com o Carli Bortolanza), ambos curtas que causaram muita polêmica. Sobre o "Gore Gore" e o "Sacanagens Bestiais", foram dois filmes que precisamos fazer porque tanto eu quanto Souza (mais o Timm e o Bortolanza, que nos ajudaram nas produções), queríamos chocar todo mundo e gozar na cara de todo mundo. "Gore Gore Gays" não ficou como eu queria, até seu título era outro, iria se chamar "A Ninfeta Gore" e era mais porrada. Mas ficamos sem atores, sem técnicos, sem grana pra fazer como era pra ter sido. Mas o "Sacanagens Bestiais" eu tenho orgulho de ter feito. Ficou ótimo e bem como havíamos imaginado. Pena que foi totalmente recusado por todo mundo e o prejuízo financeiro que tivemos com ele (e o "Gore Gore") até hoje chega a doer. Abalou nossas estruturas. Praticamente falimos com estes dois filmes, que fizemos simultâneamente e lançamos com uns seis meses de diferença. Mas foi válido. E o pior foi a pirataria. Esses dois filmes viraram cult movies dos moderninhos de Porto Alegre, mas não vendemos nenhuma cópia por lá. Foi tudo pirataria. Uma vez eu achava que John Waters (do "Pink Flamingos" e outros filmes porradas) estava errado quando começou a fazer filmes técnicamente superiores e para estúdios maiores. Mas hoje, após ter feito esses quatro filmes extremamente radicais, vejo que ele tem razão na sua mudança. Ou o cara muda ou não faz mais filmes. E na minha opinião é mais importante que eu possa filmar do que agradar umas duas ou três pessoas que não pagam para ver os meus filmes.

LR - A (vamos chamar assim) química entre vocês também foi um ponto determinante na evolução dos trabalhos de vocês. Vocês dois mudaram e isso se vê nos filmes. Falem dessa trajetória e o que representou.

PB - É que minha visão de mundo e de cinema era igual à visão do Souza. E um influenciou o outro. Um despertou o demônio adormecido do outro. E resolvemos radicalizar nas coisas que produzíamos. Resolvemos debochar de todo mundo. E não levávamos nada a sério. Só queríamos curtir com a cara dos outros. Era como se estivéssemos o dia todo dentro de um filme estilo "mundo cão", daqueles bem picaretas, que não estão nem aí com ninguém, nem nada. E foi bom! E sendo sincero, ainda sou assim, não mudei. Continuo sendo o mesmo filho da puta de sempre. Agora, a única coisa que não faço mais é misturar a minha vida pessoal com a profissional. Agora faço filmes para agradar quem vai pagar para assisti-los e não para mim.

CS - Falando em química caseira, experimente: misture bicarbonato de sódio com vinagre. Ferve, espuma, derrama do copo e depois de um tempo se acalma. A não ser que se coloque mais dos mesmos elementos juntos. Foi isso. Era a hora de estarmos misturados, fervendo. Agora estamos um numa salada, outro em um bolo. Espere pela nova mistura.

LR - E o cinema brasileiro? Como vocês vêem a situação em que se encontra? Como se sente vendo tanta grana indo para o esgoto, como o recente bá-fá-fá envolvendo o superfaturado Guarani e Norma Benguell ou as trapalhadas do Guilherme Fontes e seu Chatô? É hora de mudar a política de cinema no Brasil?

PB - Uma vez eu me importava com isso e até brigava, mas agora já não dou mais bola pra esse assunto. Meu estilo, minha técnica, meu público não é o mesmo e não tem nada a ver com isso tudo. Meu público habitual nem assiste a filme nacional... Aliás, a maior parte do meu público acha que sou um gringo fazendo filmes aqui no Brasil. Sou totalmente contra dar dinheiro pro cinema brasileiro. Sou é a favor de fazer filmes com grana do próprio bolso, aí o retorno financeiro se torna obrigatório, senão o cara não faz mais nada. O pessoal da minha geração que fazia filmes em vídeo tá explorando um público novo, que é o público heavy metal/psychobilly/hardcore... Nosso lugar é lá atrás, pelas portas dos fundos. Nunca seremos reconhecidos como artistas pela mídia oficial e acho isso ótimo, pois assim sempre seremos atuais/originais. E não dependeremos de padrinhos ou políticos.

CS - Ao sul do Equador tudo pode acontecer, mas pouco acontece. "Chatô" é chato. "Guarani" tem gosto de guaraná (quente). Norma ficou benguella. Viva Renato Trapalhão, que sabe ganhar $ com o que sabe fazer e tem público. Aqui, quem ousa mais, mais apanha. Não tem que mudar política nenhuma para o cinema. Tem é que sair a política do cinema. Cinema é arte, diversão e negócios. O cineasta quer a arte, o público a diversão. Falta quem invista no negócio. Na saudosa boca-do-lixo até dono de loja de sapato e tintureiros investiam em filmes baratos. Tinha público e dava dinheiro. Sem o apoio do governo. Talvez hoje em dia, se os traficantes e políticos corruptos apenas lavassem o seu dinheiro no cinema, teríamos uma indústria nacional !! E os diretores tinham que redescobrir o público. Cadê os filmes de gênero? Comédias satíricas, policiais, infantis (fora Xuxa-se-quebra-toda que é videoclip em tela cheia...), eróticos, filmes de aventura (cangaço, gaúchos, amazônia, etc.) e é claro, terror. Chega de novela global e caso especial no cinema. Só falta inventarem um 'Você Decide' em celulóide.

LR - Quais as suas perspectivas agora na realização de filmes?

PB - Com a separação da Canibal-Mabuse Produções, fundei agora a Canibal Distribuidora que tá fazendo o trabalho de descobrir o público potencial dos filmes e expandir o alcance das obras. O objetivo é acabar com a pirataria e criar um bom sistema de distribuição que dê lucro para o exibidor, o produtor e bons filmes para quem estiver pagando. Já estou começando a analisar produções de outras produtoras e deverei distribuir alguns títulos que sejam criativos, ousados e técnicamente bem feitos. A produção em vídeo no Brasil, recém agora está tomando forma. O objetivo é trazer bons filmes para o público e retorno financeiro para os produtores. Quanto à um novo longa com direção minha, que já estou há mais de um ano sem fazer um filme novo, deverei rodar dentro de uns dois meses um filme chamado 'Raiva', um gore radical e bem humorado. Devo lançá-lo só no final do ano. Vai ser um novo passo nas minhas realizações. Inclusive com este 'Raiva' estarei inaugurando minha nova produtora, a 'Baiestorfilmes'.

CS - Estou fora da produção direta da extinta Canibal-Mabuse. Mas como já disse, uma hora dessas atravesso o país e volto a colaborar. Estou numa fase reclusa e produzindo curtas experimentais-pessoais. Em breve lanço "Sabe?", depois "Creation", que são o que chamo de "vídeo-poemas-new undergrudi". Vou montar depois "Pornogore Project", um vídeo montagem na linha do já pronto e inédito "Aberration Television". Trabalho no roteiro do longa "Quasímodo Tropical", sem perspectivas de gravar e lanço em breve meu novo zine sobre trash movies: "Sanguelia" e adiante o "BR Trash Cinema".

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