Entrevista
Com Petter Baiestorf:
Por: 'Podre' Bergamo (Fevereiro de 2005)
01 - Queria que você se apresentasse. Quem é Petter Baiestorf? Qual sua idade, seus gostos, anseios e o que você faz?
Baiestorf: Petter Baiestorf... Na realidade o Baiestorf que todos conhecem no underground (ou que já ouviram falar) é um cara de 30 anos ainda se divertindo com a possibilidade de criticar a sociedade com seus filminhos em VHS podreira, um cara que descobriu cedo que é possível fazer o que se quer sem dar explicações pra ninguém. Em 2004 foi lançado um documentário sobre meu estilo ácido/sarcástico/cínico de ser, este documentário chama-se "Baiestorf: Filmes De Sangueira E Mulher Pelada", tem vinte minutos de duração e foi feito por um carioca chamado Christian Caselli que conheci no festival "Cine Esquema Novo" de Porto Alegre. Para adquirir o documentário, contatem o Caselli pelo e-mail chriskzl@hotmail.com e falem com ele.
02 - "O Monstro Legume Do Espaço" é o best-seller da Canibal Filmes ok? Desde o lançamento até hoje foram vendidas quantas cópias? E quanto custou o filme?
Baiestorf: Não, o filme da Canibal com maiores vendas é o "Zombio", o "Monstro Legume" é nosso segundo filme mais vendido. "Raiva" também é bastante popular. "O Monstro Legume Do Espaço" custou uns R$1200,00 e deve ter rendido umas cinco vezes mais. Mas não tenho os números certos porque parei de fazer este tipo de controle em 2000 quando desligamos a Canibal da Mabuse Produções, pois desde 2000 sou o único investidor financeiro dos filmes e se perco ou ganho grana é um problema só meu.
03 - Já faz 10 anos que foi lançado o clássico "O Monstro Legume do Espaço", podemos esperar pra esse ano alguma novidade leguminosa para comemorar o aniversário do Monstro Legume? Você não acha que é uma boa data para lançar o tão aguardado "O Monstro Legume Do Espaço 2"?
Baiestorf: Na verdade, a segunda parte do Monstro Legume já era pra ter saído em 1998 e depois em 2001, mas como sou louco e tenho um problema grave com continuações, sempre dou um jeito de ficar enrolando com este projeto e acabo lançando outro filme no lugar dele. Não há como evitar isso, não consigo. Minha idéia é lançar no final deste ano a segunda parte do Monstro Legume, mas tudo pode acontecer até lá, estou cheio de idéias mas com poucos colaboradores na produtora e este será um filme complicado, difícil e meio caro de se produzir. Na verdade tenho produzido vários curtas experimentais neste tempo todo, semana que vem filmarei um curta chamado "Bunda" (ou "Amar Dói, Matar Relaxa & Rir É O Único Remédio"), para uma coletânea chamada "Contos Da Cidade Dos Canibais" que deverá ser lançada até metade do ano.
04 - Algum tempo atrás você havia prometido dois filmes novos, um era o romance gore "Oldenburgo: Delírios Amorosos De Um Canibal Faminto" e o outro um faroeste splatter. E então? Estes projetos ainda estão de pé? O que poderemos esperar da Canibal Filmes para o ano de 2005?
Baiestorf: Tudo que falo e planejo sempre está de pé, principalmente boas idéias como estes dois projetos que não consegui levar adiante porque eram complicados e caros e sozinho, pelo menos por enquanto, não conseguirei realizá-los. Sou um cara que não para nunca, tenho um milhão de projetos engavetados, vários pela metade e assim por diante, sou hiper-ativo e levemente perturbado/neurótico, então o médico da cabeça me mandou ficar com os neurônios ocupados pra não fazer besteira. É um inferno ser Baiestorf todas as 24 horas de todos os dias. Atualmente estou melhor porque minha namorada tem me dado uma força incrível, tem me apoiado e tem me compreendido. E com a edição do folheto poético "Urtiga", que é mais calmo que meus outros zines, tenho aprendido o significado da palavra "moderação". O que esperar da Canibal em 2005?... Nem eu sei, meus planos incluem filmar "O Incrível Homem Que Derreteu - Kanibaru Remake" e "O Monstro Legume Do Espaço 2", dois filmes bem gores e engraçados, deixando de lado as experiências mais "cabeças" que fiz de 2000 à 2004. Mas sei lá, não faço a mínima idéia das tranqueiras que filmarei neste ano...
05 - Qual é a importância do trash e do underground para você? Porque você reluta em pedir auxílio ao governo para seus filmes, mesmo eles sendo de baixo orçamento?
Baiestorf: Trash é apenas um rótulo que me ajuda a vender minhas tranqueiras, underground é meu estilo de vida, uma palavra que pra mim significa liberdade, acho que ainda estou vivo por existir essa coisa fantástica que é a cultura underground. Todos meus amigos pessoais são artistas undergrounds, tirando a vivência diária com minha família, sou totalmente underground, só me relaciono com pessoas undergrounds, desde poetas a atores, músicos, zineiros, escritores, videomakers, cineastas etc... O real é que as pessoas comuns nunca me interessaram, acho que é por isso que nos meus filmes você nunca vê personagens comuns, sempre personagens loucas, intensas, com atitude e únicas. Acho que é isso que torna meus filmes em "obras cults"!!! Reluto em pedir grana pro governo porque não tem nada haver com minhas produções, foda-se o governo, tô fodido de grana porque o governo me roubou, me assaltou com seus impostos, nem consigo dar baixa na empresa Canibal-Mabuse Produções - que faliu em 1999 - porque eles me assaltaram quando quis dar a baixa. No Brasil você paga pra trabalhar, não dá pra entender como ninguém se revolta, ninguém ergue a voz, ninguém faz nada. Prefiro fazer meus lixos com a grana que consigo arranjar, assim sou mais feliz... Me orgulho em dizer que sou 100% independente, posso ter feito um monte de filmes ruins, mas são totalmente meus. Sabe, não preciso do governo pra fazer minhas merdas!!! Minha idéia é criar um movimento que trabalha com grana particular, com investidores particulares, com uma distribuição particular, mas todo mundo nesta joça só quer mamar nas tetas do governo, é o karma da classe média brasileira... Agora tô tentando convencer uns caras do Rio de Janeiro (que é onde fica a editora anarquista Achiamé que editou meu livro "Manifesto Canibal" e onde mora o cara que fez o documentário sobre mim) a me darem grana pra rodar um curta anarquista sobre carros, trânsito, poluição, grandes centros, etc... São uma idéias anarquistas que tenho e que defendo e que gostaria de transformar em filme, mas que vou precisar de suporte financeiro. Sabe-se lá o que vai rolar...
06 - No Brasil acho que só você e o Ulisses (do Putrescine) tem um acervo tão grande de filmes obscuros. Por isso quero uma dica de quem entende, quais os filmes pornôs mais hediondos que você já viu? E os de terror/horror? Quais os mais desgraçados?
Baiestorf: Odeio essa pergunta, pois sempre tenho que explicar que eu odeio filme linear, filme normal com início meio e fim e aí é difícil o pessoal entender minhas motivações cinematográficas. Não gosto de filmes de horror, nem de filmes pornôs, na verdade acho que nem gosto de cinema, ou, não gosto de nada. É isso, sou um idiota ranzinza que não gosta de nada, por isso ninguém entende meus trabalhos experimentais, por isso sou tão frustrado, pessimista e babaca. Petter Baiestrof é um babaca!!! Devia ter nascido morto, enforcado no cordão umbilical, afogado na placenta ou algo do gênero, pra não ser este peso social que está por aí largado reclamando de tudo... Mas, veja os filmes pornôs japoneses da Tohjiro e similares, tem coisas bizarras legais. Veja "United Trash", "Sweet Movie", "The Holy Mountain", "Kichiku", "Story Of Ricky", "Suicide Circle", "Bizita Q" e filmes undergrounds em vídeo, de preferência câmera na mão tremida com atores reais saídos do povão e palavrões, com realidade social envolvida, com críticas ácidas, etc... Minha dica é: Parem de assistir filmes industriais!!!
07 - Por fim, deixe suas considerações finais, uma mensagem para seus fãs:
Baiestorf: Não tenham ídolos, vocês são melhores que qualquer bosta e podem fazer o que quiserem. Façam aquilo que tiverem vontade e foda-se o resto... E não tenham rótulo, rotulagem significa ter limitações, preconceitos, etc...