Culto
À Filmes Z - Cineasta
Faz Sucesso No Circuito Alternativo Nacional Com Produções De Baixo Orçamento!
Por: Rubens Herbst
Santa Catarina também tem o seu Ed Wood (cineasta norte-americano que nos anos 50 e 60 se notabilizou por produzir filmes com orçamento baixíssimo e qualidade idem). Ou, pelos menos, um diretor que compartilha dessa "estética do lixo": cenários capengas, histórias descerebradas, atores canastrões. Ele ainda não virou cult, mas já tem o seu público fiel. Para esses, quanto mais feio, mais charmoso. Não fosse por isso, talvez filmes trash como "Criaturas Hediondas", "O Monstro Legume do Espaço" e "Eles Comem Sua Carne" nunca saíssem do papel, e Petter Baiestorf não seria cultuado no cenário alternativo brasileiro.
A trajetória de Petter é parecida com a de milhares de cineastas, famosos ou não. Cansado de procurar (e não encontrar) filmes que lhe agradassem - no caso os de terror - resolveu produzir ele mesmo as sanguinolentas histórias que lhe ocorriam, com um detalhe: não existe limite entre o que pode ou não ser mostrado na tela. O primeiro filme da Canibal Produções, "Criaturas Hediondas", de 1993, foi feito no tradicional esquema de amizade, emprestando material, vendendo fitas, exibindo em festas. "Aí eu vi que tinha potencial, principalmente em vídeo", revela. "Num momento em que todo mundo quer fazer filmes de 1 ou 2 milhões, o vídeo é um caminho. Apesar de a qualidade não ser tudo aquilo, o que vale é a diversão".
"Criaturas Hediondas 2" veio em seguida, aproveitando as idéias do longa original, mas foi "O Monstro Legume do Espaço" que obteve a melhor repercussão. Em 1996, Baiestorf se aliou ao produtor César Souza (nada a ver com o deputado e apresentador) e, munido de uma câmera Super-8, rodou "Eles Comem Sua Carne", que já apresenta uma melhora sensível na qualidade, sem, no entanto, perder as características das "Produções Z". Isso fica claro no orçamento médio dos filmes da Canibal/Mabuse: entre R$ 1.500 e R$ 2 mil. O dinheiro, gasto com cachês, material, edição, efeitos especiais (sim, eles existem) e demais despesas, vem da venda de fitas pelo correio e em mostras, além de sua participação em trabalhos de outros diretores.
Obviamente, a falta de verbas exige de Petter e sua equipe uma boa dose de malabarismo, improviso e criatividade para "esticar" o dinheiro ao máximo. O cineasta montou uma empresa de efeitos especiais, que serve para fazer experiências com diversos materiais a fim de conseguir os mais estranhos resultados: desde nojentas feridas até cabeças em adiantado estado de putrefação. Para produzir sangue, por exemplo, é misturado groselha e anelina. Mas gelatina, látex, erva mate e até tripa de porco entram na brincadeira, com resultados às vezes risíveis, às vezes asquerosos. "O grande esquema de fazer filmes independentes e não gastar é ir testando. O que a gente faz de coisas que não dá certo...".
Escândalo:
Além de produzir, dirigir e escrever os roteiros, Petter também atua quando é necessário. Foi o que aconteceu em "Gore Gore Gays", que mistura homossexualismo, escatologia, assassinato, terror e várias outras coisas que não costumam seduzir a maioria dos atores, geralmente recrutados em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. "Eu faço críticas ácidas à religião e instituições, e alguns não se identificam com a proposta", dispara. Curiosamente, tais elementos espinhosos não causam tanto alvoroço quanto se imagina na pequena Palmitos, cidade de 13 mil habitantes no Oeste do Estado, onde o diretor faz seus filmes e mantém uma videolocadora. Apesar de não ligar para as críticas, ele não dá muita abertura para que elas aconteçam. "Se fizesse uma exibição pública daria problema. Não para mim, que sou dono do meu negócio, mas o pessoal que trabalha comigo pode perder o emprego, essas coisas", reconhece. As coisas pioram quando surgem boatos sem nexo. "Rolou um papo que eu obrigava os atores a comer tripa", ri. Baiestorf relembra o episódio em que, ao rodar uma cena em um cemitério, apareceram pessoas e começaram a implicar com o trabalho. Resultado: as filmagens tiveram que ser transferidas para outro cemitério. Em outra oportunidade, quando o roteiro exigia cavocar uma sepultura, Baiestorf, vacinado, foi pedir autorização da igreja local - por baixo dos panos, por sinal.
Mesmo não parecendo, o objetivo de Petter não é chocar, mas sim contestar, fazer as pessoas pensarem e deixarem a hipocrisia de lado. "No Brasil ninguém faz nada antes de saber o que o outro vai pensar", afirma. Mas apesar desse fundo moral, o cineasta diz que também precisa sobreviver, e para isso não titubeia em informar que seu próximo projeto visa lucro. Trata-se de uma seqüência de "O Monstro Legume do Espaço", seu maior sucesso até hoje. Segundo ele, o filme, que está na fase de pré-produção e deve sair em julho, terá todos os elementos do original para agradar os fãs e será o mais bem elaborado de sua carreira. "O lance é fazer o filme se vender para poder fazer outro", explica. Mercenário? Não, apenas questão de sobrevivência. "Todo mundo precisa de dinheiro. Eu só quero viver da minha arte", rebate Baiestorf.
Como então Petter se sairia se tivesse nas mãos um orçamento mais generoso - algo com o qual teve contato quando foi convocado para revisar a trilha sonora do novo filme do lendário Ivan Cardoso ("As Sete Vampiras")? Ele acha que conseguiria fazer um trabalho bem feito, mas tem dúvidas quanto à satisfação do produtor: "Ou o cara ia ficar interferindo o tempo todo ou teria um grande prejuízo", acredita. Mas como o cinemão não lhe interessa, Baiestorf pretende continuar atuando no underground. "Meu negócio é viajar de ônibus e expor em mostras", garante, convicto. Ed Wood ficaria orgulhoso!