"O Cinema Nacional Tem Salvação E Ainda Vou Provar Isto Com Meus Filmes Bagaceiros" - Cristiano Zanella Entrevista O Alucinado Videomaker Petter Baiestorf:
Por: Cristiano Zanella
Ladies, gentlemen & rapaziada
em geral: queiram vocês ou não, reciclar lixo está na moda. Não, não se trata
de coleta seletiva, lixo seco, orgânico, etc. O lixo em questão está escondido
em latas de filme, revistas vagabundas, pulps e velhos long-plays. Adolescentes
(alguns nem tanto, but that's all right) de todo o planeta estão abrindo os
baús da cultura TRASH e redescobrindo pérolas do mau gosto e da picaretagem.
E já que o assunto é cinema e a onda é TRASH-MOVIE, o Brasil - notório consumidor
de produtos cinematográficos de baixa qualidade, vide Qu4trilhos, Dicionários
Amorosos, Ed Morts, Guerras de Canudos e etc - é claro que não iria ficar fora
desta. Afinal de contas, tem gosto pra tudo!!! Sediada em Palmitos, oeste catarinense,
a Canibal/Mabuse Produções, comandada pelo muito louco Petter Baiestorf, traz
até você as mais radicais produções em vídeo-trash da América Latina. As fitas
"O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO" (95), "ELES COMEM SUA CARNE" (96), "SATANIKUS"
(96), "CAQUINHA SUPERSTAR A GO-GO" (96), "BONDAGE" (96) e o imperdível "BLERGHHH!"
(96) já venderam mais de 2 mil cópias pelo mundo afora. Sangue, porra, tripas,
peitos, violência gratuita, podreira explícita, sadismo, satanismo e tudo mais
que uma mente doentia poderia vomitar são a matéria-prima destas obras, realizadas
sempre dentro da filosofia do "quanto pior, melhor". E, pra piorar mesmo, tudo
rodado no mais puro VHS. Além de produções próprias, a Canibal/Mabuse possui
um acervo de filmes raros, cults, independentes, trashs, exploitations, gores
e pornôs. Se os queridíssimos leitores estão com o saco cheio de cinema-comédia-da-vida-privada-estudios-disney
e/ou procurando emoções fortes, é só solicitar o catálogo pela Caixa Postal
67 - Palmitos/SC - CEP: 89887-000. Mas chega de conversa fiada, pois não estou
aqui pra vender bugigangas! É com muito prazer que apresento a vocês um dos
mais cultuados diretores do novo underground nacional: Mr. Petter Baiestorf...
Zanella: Nome completo?
Baiestorf: Petter Baiestorf. É verdade! Ninguém acredita que este seja meu nome
verdadeiro, mas é! Para confundir todo mundo ainda mais, uso pseudônimos aos
montes, coisas tipo Lady Fuck, Peter Bastard, Pedro B. Storf, Uzi Uschi, Biker
Hell, Peter Bucetorf, Otávio Biscarotto, Pedro B. Dreher e assim por diante,
só para confundir.
Zanella: Data e local de nascimento?
Baiestorf: Não lembro! Dizem que estou na casa dos 20 anos, mas não sei. Melhor
é me considerar um cidadão do mundo, que pode andar livremente por qualquer
lugar e fazer o que quiser sem precisar dar explicações. Posso afirmar que somente
assim sou feliz.
Zanella: Casado? Solteiro? Tem filhos?
Baiestorf: Solteiro e cheio de amor pra dar. Se as leitoras quiserem um pouco
de mel, é só entrar em contato. Me amarro naquelas gauchinhas moreninhas e de
rostinhos bem frágeis, tipo ninfetinhas sacanas. E filho não tenho, nem quero
ter. Esse mundo é uma merda, não vou jogar mais um nesta porcaria puritana,
cheia de religiosos fanáticos metidos à besta.
Zanella: Time para qual torce?
Baiestorf: Pro time dos cachaceiros! Odeio qualquer tipo de esporte. Respiro
cultura 24 horas por dia e sou chegado numa boa birita. Mas nada de esforço
físico, que acho uma porcaria.
Zanella: Atualmente vive do que? Mora com os pais? Trabalha?
Baiestorf: Tento viver da minha arte, mas está difícil. Tenho uma locadora com
a minha mãe e às vezes pego grana com ela, outras vezes pego grana emprestada
e outras vezes ainda filmo festas e tiro uns trocos. Vou me virando do jeito
que dá! Moro ainda com os meus pais, pois é o único modo de não precisar lavar
roupa, fazer comida, pagar luz, água e etc... E depois, meus pais são gente
fina. Meu velho, por exemplo, foi motorista de produção e iluminador num pornô
que estou filmando agora. Não posso me queixar deles. São 2 pessoas legais!
Zanella: O que você fazia antes de se interessar por cinema? Teve uma infância
e adolescência normal, relacionando-se de forma sadia em casa e no colégio?
Como começou o seu interesse por filmes?
Baiestorf: Antes de começar a produzir/escrever/dirigir vídeos, eu já editava
um fanzine chamado "Arghhh" (que aliás, ainda edito, já no número 23), especializado
em quadrinhos e literatura de horror. Isto lá pelos meus 14/15 anos. Sempre
fui fanático por filmes. Em casa, sempre tive um relacionamento sadio. Já socialmente,
sempre fui (e continuo sendo) muito rebelde. Já cuspi em pessoas chatas, briguei
com amigos por coisas fúteis, etc... Atualmente estou mais irônico, o que ajuda
a agüentar toda esta hipocrisia que acompanha as pessoas. No colégio, nunca
me acertei com os professores, pois sempre os achei uns otários que não sabem
ensinar... uns idiotas capachos do sistema que transformam as pessoas em vegetais.
Quer aprender? Então saia pras ruas bem cedo e leia todos os livros que puder.
Também viaje pra caralho, pros lugares mais incríveis. Assim você cresce muito
mais do que se ficar numa sala de aula com um monte de colegas palhaços e um
professor tapado.
Zanella: Seus trabalhos são produzidos em vídeo. Tem algum projeto para rodar
em filme?
Baiestorf: Sim, estou produzindo em vídeo. No início de 98, devo participar
de um curta em 16mm, mas ainda não estou muito inteirado do assunto pois estou
tocando os pornôs pra frente. Agora, por exemplo, estou rodando 2 vídeos paralelamente:
o pornô bizarro "SACANAGENS BESTIAIS DOS ARCANJOS FÁLICOS" e o gore de sexo
homossexual quase explícito "A NINFETA GORE". Ambos deverei lançar em janeiro
de 98. Depois, devemos ir pra Fortaleza/CE, filmar uma série de pornôs convencionais
nas praias de lá. Em 99 devemos filmar o terrorzão podreira "VAMPIRE TOPLESS
PARTY", em 35mm. Temos projetos pra caralho em andamento.
Zanella: Quanto custa para produzir um longa em VHS? Em quanto tempo são finalizados
seus trabalhos?
Baiestorf: Fazer um longa em VHS, nos meus moldes, pode custar entre R$ 1000
e R$ 2000, mas depende muito do roteiro e do pessoal que está trabalhando comigo.
Com minha equipe habitual, produzo muito rápido, daria pra fazer uns dois longas
por mês se houvesse um sistema de distribuição legal. Ou seja, eu faria os vídeos
e alguém ia vendendo-os com uma rapidez que permitisse reunirmos uma quantia
de dinheiro suficiente para iniciar outra produção. Mas como somos nós mesmos
quem fazemos a distribuição, a coisa anda mais devagar.
Zanella: Suas fitas são distribuídas para outros países? Como funciona este
intercâmbio com produtores internacionais?
Baiestorf: Meus filmes são assistidos em todo o Brasil e Europa, principalmente
Espanha (onde já participei de mostras), Alemanha, Portugal, Inglaterra, etc...
Agora também estou começando a penetrar no mercado americano, através do Lloyd
Kaufman (da Troma) e da revista Psycotronic. E na Argentina, através de um crítico
que gostou de "ELES COMEM SUA CARNE", um longa que produzi em 96. Também distribuo
filmes independentes aqui no Brasil. É um meio de meus filmes rodarem o mundo
e os filmes gringos rodarem o Brasil, que é um grande mercado consumidor.
Zanella: José Mojica Marins - o Zé do Caixão - é sem dúvida um capítulo à parte
na história do cinema brasileiro, enquanto que Ivan Cardoso parece ser uma das
suas principais influências. Gostaria que você comentasse alguma coisa sobre
estes cineastas.
Baiestorf: Gosto muito do cinema de Mojica, mas como pessoa ele é um bundão.
Meu público também acha ele um bundão. Mojica deveria ter morrido nos anos 80,
assim não teria feito este monte de burradas. Burradas tipo "Cine Trash", a
peça teatral "Guilhotina do Terror" e outras bobagens que o cara fala por aí.
Mas sua obra cinematográfica, junto do cinema marginal brasileiro e o pornochanchada,
foi a única coisa boa que o cinema brasileiro fez. Seu estilo de produzir é
fantástico! Ivan Cardoso sim é que é um cineasta completo. Meu diretor brasileiro
preferido. Você assistiu no Festival de Gramado o curta "À MEIA-NOITE NA ZONA
COM GLAUBER"? Simplesmente fantástico! Fiquei emocionado ao ver o filme. Eu
e o César Souza (meu sócio) não conseguíamos parar de rir, pois estávamos curtindo
demais. Como é bom saber que o Brasil tem pelo menos um cineasta dos grandes.
Considero-o melhor que o Mojica. Conheci o Ivan na 2a Horrorcon (uma convenção
de horror em São Paulo que já foi pra escanteio), pois eu era um 'espécie de
conselheiro' da programação e enchi o saco dos caras para ter Ivan no evento.
Zanella: Seu arquivo de filmes nojentos é certamente um dos mais - senão o mais
- completos do país. Comente esta predileção por filmes de horror gore. Quais
os títulos mais importantes e/ou loucos de sua coleção?
Baiestorf: Adoro tudo que seja exagerado! Então, nada mais justo do que colecionar
filmes que são o extremo de tudo. Tenho maravilhas como o pornô "MAD LOVE LIFE
FOR A HOT VAMPIRE", de Ray Dennis Steckler, o sadomasô/bizarro "ORGIA SATÂNICA
2", onde uma mulher faz fist fucking com um velho (obs: ela é que mete a mão
no cú do velho), "MEET THE FEEBLES", de Peter Jackson (o mesmo cara que fez
os maravilhosos "BAD TASTE", "BRAINDEAD" e "ALMAS GÊMEAS", já disponíveis no
mercado nacional de vídeo) que é uma animação de fantoches gore e coisas extremamente
raras como o japonês "ENTRAILS OF THE VIRGINS", "NEKROMANTIK 1 e 2", "TETSUO",
"KISS ME QUICK", "THE SINFUL DWARF", "THE TOY BOX" entre muitos outros inéditos
no Brasil. Quem quiser, vendo gravações destas raridades por um precinho bem
camarada. Podem entrar em contato comigo!
Zanella: Como surgiu Caquinha, personagem símbolo da Canibal Produções?
Baiestorf: Caquinha era um personagem que fez muito sucesso num longa nosso,
"O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO", considerado cult no underground brasileiro, e
que resolvemos transformar num filme solo. Assim, produzimos o baratíssimo "CAQUINHA
SUPERSTAR A GO-GO", que é uma mistura de musical vagabundo com sexploitation.
Ficou legal e já se pagou. Talvez daqui a alguns anos nós produzamos mais um
longa da série, provavelmente com o título de "CAQUINHA SMELLS PUSSIES AGAIN",
mas nada definitivo, pois não gosto de fazer seqüências.
Zanella: Você costuma usar ou já usou algum tipo de droga? De que maneira elas
influenciam o seu trabalho?
Baiestorf: Continuo só bebendo. Faz tempo que não me chapo, pois esta bosta
toda de drogas estava afetando a minha criatividade. Bebo sim bastante cerveja,
café, uísque e outras porcarias, e muito de vez em quando um cházinho ou um
ácido ... E gosto muito de trabalhar com drogados, pois exploro-os muito neste
estado de lisergia, conseguindo atuações mais fortes e até escrotas.
Zanella: Cite alguns realizadores que você admira ou que te serviram de inspiração.
Baiestorf: Fora Ivan Cardoso, que já citei, gosto muito de Russ Meyer, Ray Dennis
Steckler, Davis Friedman, H.G. Lewis, Robert Lee Frost entre muitos outros que
fazem/faziam sexploitations e pornôs. Diretores que se levam a sério, gosto
de alguns europeus, como Jorg Buttgereit, Joe D'Amato (nas 2 fases: cinema bagaceiro
sério e pornôs sérios), Felinni, Pasolinni e outros que fazem/faziam o que estão
a fim e que se foda quem não gostar.
Zanella: Projeto de vida? Pretende continuar fazendo filmes?
Baiestorf: Filmar é minha única paixão nesta vida de merda. Nunca vou parar,
principalmente enquanto existirem pessoas, como o Cesar Souza (dono da Livraria
Planeta Proibido, em POA), que apostem no meu talento e produzam meus filmes.
Aliás, se não fosse pelo Souza, eu estaria meio parado neste ano de 97, pois
com esta crise que assola o Brasil tá muito ruim pros independentes. Mas vamos
continuando. Meu projeto de vida? Bem, sou meio pretensioso quando posso sonhar...
Quero filmar em 35mm, com orçamento milionário, a vida de Cristo como um guerreiro
que foi traído por Judas, que era um veado que não teve o seu amor correspondido
pelo salvador dos fracos. Vai ser uma história tremendamente humana, mostrando
um Cristo mais real, cheio de falhas, inseguranças e medos, como ele realmente
o era.
Zanella: Pra terminar, você acha que o cinema brasileiro tem salvação? Qual
é? Algum filme brasileiro te agradou nos últimos anos?
Baiestorf: O cinema nacional tem salvação e ainda vou provar isto com meus filmes
bagaceiros. Na minha opinião, em primeiro lugar este pessoalzinho deve esquecer
o governo e fazer filmes com a grana própria. Assim, o cara que não tem retorno
financeiro não consegue fazer mais filmes, e cai fora do barco. Quem faz cinema
no Brasil deve passar fome pra saber o valor das coisas. Também tem que acabar
com a Globo - que só atrapalha o cinema! - e esquecer os atores e a estética
global de novelas lixônicas. Precisa ainda mudar a mentalidade dos distribuidores,
e isso só vai acontecer quando os filmes nacionais derem lucro, coisa que só
vai acontecer quando houver dinheiro no bolso de todo mundo. Outra coisa fundamental
é fechar todas estas faculdades vagabundas. Em vez de ficar aprendendo porcarias,
é melhor ir pro mato produzir porcarias, nem que seja filmes trash ou pornôs.
Estes babaquinhas que estudam cinema precisam parar de pensar que são Quentin
Tarantino. Esqueçam o Tarantino e vão produzir filmes, seus babacas. Vocês não
são o Tarantino, e nunca vão ser... Acho que é por aí. E em se tratando de filmes
nacionais, gosto de muita coisa produzida pelo cinema marginal (Sganzerla, Bressane,
Tonacci, Visconti e outros) e de pornochanchadas. Dos recentes (tipo década
de 90), acho que não gostei de nenhum. Mas ainda não vi "O BAILE PERFUMADO",
cujos diretores são muito gente fina e meu amigo, o maquiador Ricardo Spencer,
fez os efeitos especiais. Este promete, mas não vou falar antes de assisti-lo.