Canibal & Mabuse Produções: O Horror Que Vem Do Sul!
Por: Lucio Reis
Transgressores? Sem dúvida! Marginais? Mais ainda! Bizarros? Nem se fala! Escrotos? Politicamente incorretos? Doentes? Pornográficos? Seja qual for o "adjetivo" que você queira usar, o fato é que os filmes da Canibal/Mabuse são tudo isso e mais ainda! Em fins de 94, quando preparava a edição 3 do "B ZINE", fui informado, através de um leitor, sobre um pessoal de Santa Catarina que editava um fanzine e estava começando a produzir uns vídeos independentes bem no estilo fundo-de-quintal. Só para relembrar, 1994 foi um ano bem propício no que diz respeito à divulgação do cinema de horror por aqui, mais específicamente o horror trash. Nunca esse tipo de produção esteve tão em evidência como naquele ano saudoso, quando até o "Vídeo Show" dedicou espaço ao assunto. Teve "Documento Especial", mil matérias no "Rio Fanzine" (O Globo), exibições na "Mostra Banco Nacional de Cinema" (com a presença do americano Mike Vraney, da Something Weird), enfim, tudo levava a crer que a trashmania tinha chegado para valer. E nós já sonhávamos com convenções, presença de astros, com tudo aquilo que os americanos já estão carecas de conhecer. Bem, sabemos no que deu toda essa história.
O fato é que, por essa época, entrei em contato então com um tal de Petter Baiestorf. Escrevi-lhe pedindo informações sobre seu trabalho. Ele mandou algum material impresso, algumas fotos e uma fita de vídeo chamada "Criaturas Hediondas". Qual não foi a minha surpresa ao ver tamanho empenho naquela obra tôsca, primitiva, doméstica e totalmente amadora. E é esse empenho que salta aos olhos. Bem no espírito daquelas produções de baixíssimo orçamento dos anos 50 e muito sangue-e-tripas. Petter também assina - com outros colaboradores - um fanzine completamente anárquico chamado "Arghhh!".
Alguns meses depois (abril/95) conheci Petter rapidamente na primeira edição da "HorrorCon" - uma convenção, como o próprio nome diz para os apreciadores do gênero - que aconteceu em São Paulo. Tive a oportunidade de conhecer também outra grande figura: Cesar Souza, ou Coffin Souza. Um dos maiores conhecedores do gênero, Cesar também edita dois fanzines: "She-Demons" (dedicado às Scream Queens e Femmes Fatales) e "Suspiria" (para os fãs do cinema de Horror). O melhor resultado dessa "HorrorCon", portanto, foi a união da "Mabuse Produções" (de Cesar) com a "Canibal Produções" (de Petter). Essa união resultou em um ganho de criatividade e uma evolução nas produções de vídeo.
Nesses poucos anos foi evidente a evolução técnica e o desligamento cada vez maior das amarras formais. As produções da Canibal/Mabuse estão cada vez mais deliciosamente despudoradas e anárquicas, mantendo uma qualidade que destaco desde os primeiros filmes: o primitivismo e a crueza. Sangue, sexo e muita ironia se misturam, sem as preocupações que permeiam as obras comprometidas com o sistema.
Nessa meca de órfãos, viúvas e bastardos da "Embrafilme", dá gosto ver alguém fazendo cinema sem depender do dinheiro público e sem comprometimento de qualquer tipo.