Adivinhe
Quem Veio Para Jantar?
Por: Jorge Rocha
Imagine o efeito na cabeça de uma pessoa que se deixa encantar pelas obras de Zé do Caixão, Russ Meyer, Alexandro Jodorowsky e da Troma Films. Potencialize este efeito pois, no caso que aqui tratamos, o "paciente" mora em uma sorumbática cidade do interior de Santa Catarina. O cérebro deste pobre mortal uma hora haveria de não agüentar o tranco e, fatalmente, sucumbiria à estética trash, tornando-o assim, um apreciador da arte de provocar o público incauto com imagens fortes. Pois foi o que ocorreu com este pacato cidadão de Palmitos (SC), Petter Baiestorf, que acabou por se tornar diretor da Canibal Produções - um conluio de alucinados filhos do VHS resolvidos em produzir fitas de baixo orçamento e alto experimentalismo. Um caminho sem volta. Ainda bem.
A primeira produção canibal em vídeo foi batizada de "Criaturas Hediondas". O roteiro era típico de terror-ficção científica: um cientista marciano - sem antenas e com aparência humana - Dr. Rottenberg, estava na Terra para comandar uma invasão, transformando os humanos em zumbis, num festival de sangue e tripas, elementos que nunca mais faltariam na produção baiestorfiana. Neste mesmo tempo, ele já publicava "Arghhh", um fanzine splatter-gore que mantém até hoje, com participação de aficcionados de vários becos deste planeta.
Parênteses: Em 1997, quando esteve no Festival de Gramado, a convite do cineasta Ivan Cardoso, que exibia o curta "À meia-noite com Glauber" (cuja seleção musical teve uma pequena colaboração canibal), Baiestorf lançou o zine "Defecando Urros", com textos escatológicos e alucinados, ilustrados com fotos de corpos lacerados e/ou em decomposição.
Na filmografia da Canibal Produções, é possível destacar pérolas como "O Monstro Legume do Espaço", obra que, além do personagem-título, levou à posteridade o nojento Caquinha, originalmente encarnado por Leomar Wazlawick (amigo pessoal de Baiestorf) que desistiu "desta vida" pouco tempo depois da conclusão deste vídeo. O sucesso de Caquinha foi tanto, que o personagem chegou a ter um vídeo próprio, dessa vez sendo interpretado por E.B. Toniolli.
Baiestorf aponta que o fenômeno de produções, que ele chama de "tranqueiras / experimentalismo / gore / transgressão / vídeo autoral" no Brasil é quase exclusivamente regional e de cidades pequenas ou grandes centros fora do eixo "Rio / SP / BH / Curitiba". Ele cita como exemplo algumas cidades foco como: Palmitos, Chapecó e Joinville (SC); Marau, Porto Alegre, Pelotas, Roca Sales, Esmeralda e Santo Antonio da Patrulha (RS); Brasília (DF); Sorocaba (SP); Cascavel (PR); Uberlândia (MG): "Acredito que o pessoal do interior/cidades pequenas possua maior liberdade para fazer o quiser, por não estar preso à convenções de faculdades, cineastas mais velhos e premiações".
E por onde tanta gana em experimentar tem levado a produção baiestorfiana? O incauto leitor nem vai acreditar: "Em 98, idealizei o "Festival 24 horas de Pânico Caótico com os Canibais", que seria mais ou menos o seguinte: o povo pagaria o ingresso e entraria numa sala de exibições de filmes, onde teria banheiro e bar, sem cadeiras, e seria trancado ali dentro por 24 horas, sendo bombardeado com filmes da Canibal Produções" - rumina Baiestorf.
O delírio canibal com esta idéia - que não saiu do papel, pois ainda conservamos nossa sanidade mental (!!??) - incluía até três telões, colocados de forma triangular, que exibiriam os filmes simultâneamente. Mas o canibal-mor não se deu por vencido. Agora se encontra envolvido com a produção do mais novo vídeo que - até o momento - intitula-se "Raiva". Tudo que ele permite que o mundo saiba a respeito desta produção é que se trata de uma mistura de surrealismo e teatro do absurdo. Nada mal para alguém cuja última produção, "Zombio", um terrorzinho psycho-teen com um quê de comercial e de baixíssimo custo (até mesmo para uma produção do tipo) abusava de clichês sobre mortos-vivos melequentos, e que (curiosamente) vendeu cópias e mais cópias. Isso depois de realizar os transgressores e experimentais "Sacanagens Bestiais dos Arcanjos Fálicos" e "Gore Gore Gays" - deixemos que os títulos falem por si - que têm a cara exata deste palmitense, mas que não tiveram a repercussão esperada.
Falta algo ainda? Ah, sim! Baiestorf se contorce e, de suas entranhas de realizador, arranca mais uma frase de efeito:
"CINEASTAS SÃO OS MENDIGOS DA ARTE: SEMPRE RECLAMANDO, PEDINDO ALGUMA COISA E FAZENDO POUCO".