Amor, Sexo & Outras Bebidas Delirantes (Petter Baiestorf/2004):
III. OUTRAS BEBIDAS DELIRANTES:
Mando Minha Infelicidade Embora Ao Primeiro Gole
Sou um heterossexual frustrado. Sim, sei que sou. Também sei que sou um cara trágico, do tipo deprimido porque o mundo é injusto, porque o bicho homem é cada vez mais egoísta, porque a cada dia que passa todos parecem mais ocupados com as futilidades da vida moderna e, principalmente, porque nunca me senti amado pelas mulheres que amei. Brega ! Isso mesmo, vou devanear um pouquinho neste assunto brega que meus poucos amigos já estão de saco cheio de me ouvirem resmungando. Uma história que aconteceu na época em que os homens ainda pensavam. Uma história sobre um cretino infeliz, uma verdadeira montanha humana, que nunca soube dar o que as garotas esperavam. Um cretino que sempre tentou surpreende-las, ser original, criativo, carinhoso, sem perceber que as mulheres não procuram essas qualidades num homem, o que elas procuram é um cara exatamente igual a todos estes inúteis que estão por ai com seus carrões e empreguinhos ridículos. Elas procuram um cara que lhes dê segurança, o famoso conforto financeiro.
Carinho ?... Carinho elas conseguem comendo chocolate !!!
No tempo em que os homens ainda pensavam conheci uma poetisa fantástica, talentosa, cheia de vida. E essa energia que ela esbanjava com olhares e conversas interessantes me devolveu a inspiração, me devolveu a paixão pela vida que, acreditem, a muito tempo eu já havia perdido. E travei contato com ela, trocamos cartas falando das muitas coisas que tínhamos em comum, bebemos algumas vezes juntos, me apaixonei e, por fim, a perdi. O Ciclo completo que sempre me perseguiu com fome de destruição, com a intenção de endurecer meus sentimentos, com a natural vontade de petrificar meu coração, culminando com a real corrosão da razão. Delírios, alucinações e vozes na cabeça que me diziam:
"Como não poderemos ser namorados, posso me contentar em tê-la como musa inspiradora !"
E outra voz dizia mais poderosa:
"Sozinho eu quase não consigo dizer para a garota que gosto dela, no meio de um monte de gente é que não conseguirei mesmo !"
E mais outra que cortava as duas vozes anteriores e perguntava:
"Você acha que alguma mulher está preparada para um relacionamento sério com um maldito como você ?"
"Não sei !!!... Mas também não sei se o mundo está preparado para o Anarquismo, não sei se o homem já pisou na lua, não sei como destruir a Igreja Católica, não sei como fazer para exterminar os políticos como se fossem baratas, não sei como me livrar dos militares, não sei tantas coisas, não senti tantas emoções que gostaria de sentir ao lado da mulher amada, abraçando-a e brindando com ela em homenagem ao último burguês que tombaria nos lamaçais petrificados livres do hediondo sentimento religioso finalmente extinto na raça humana !!!" , respondia para acalmar as vozes que nunca se calavam.
E eu me escondia no meu quarto escuro, viajava em meu mundo pessoal com medo de ter de caminhar entre as pessoas do mundo real. E, desesperado, comprava minha felicidade em litros. Litros de cerveja, litros de vinho, litros de uisque, tequila, cachaça, vodka, conhaque, rum ou qualquer outra bebida que me fizesse rir como um desgraçado que quer esquecer as coisas que o atormentam, que quer andar embriagado se esquivando dos problemas, que mandava sua infelicidade embora ao primeiro gole. E assim, escondido, me lembrava do dia em que ela me mandou seus poemas para que eu lhe desse minha sincera opinião sobre eles e eu, embriagado como um porco, pensava:
"Mas como avaliar com sinceridade algo realizado pela mulher que você ama ? Quando você adora tudo o que a pessoa amada faz, até suas falhas são fantásticas !!!"
E eu sabia que havia perdido uma garota divertida, inteligente, espirituosa, linda, ou seja, havia perdido tudo o que sempre procurei numa garota e já não havia mais volta, mais nada para fazer o tempo perdido recuar e todas essas coisas que os românticos pensavam em seus livros. E todo esse sofrimento tipo "Jovem Werther" só porque eu sempre havia sido um covarde nos assuntos do coração...
E eu chorava, gritava, suspirava e, já aos primeiros goles, ia mandando a infelicidade embora. E me reunia com meus amigos mais infelizes e bebia mais, e gargalhávamos de minha existência patética, gargalhávamos deles, gargalhávamos da frustração da humanidade, felizes por termos como escolher a revolução social como válvula de escape para nossos problemas amorosos, furiosos militantes de corações partidos, sem medo de sermos magoados pela vida, sem medo da morte. Sabíamos que para sermos felizes era necessário, primeiro, começar algumas mudanças profundas na sociedade e faríamos e acreditaríamos que as mudanças eram possíveis.
Acreditem leitores, não há nada mais triste do que ver uma montanha desmoronar !!!
Conversando Sozinho Desde Ontem
Tirei ótimas fotografias descoloridas das cores dos raios solares. E me coloquei a olhar as cores de todos os ângulos. Sai para fora de meu estúdio e vi um escritor se arrastando no chão. Vi que era um escritor medíocre: Bons textos, estilo irônico, ritmo alucinado, mas sem compaixão por ninguém. Reparei que estava diante de um sujeito que havia matado sua alma. Um sujeito nada humilde, arrogante, implorando por uma ajuda sua mesmo. Precisava mudar, ressuscitar sua alma através de uma alma gêmea. O escritor queria mudar, mas todas as evidências apontavam para o contrário nada positivo. Sentou-se no chão mesmo e ficou olhando-me, calado como uma rocha. Também me sentei no chão e fiquei olhando-o, igualmente calado. O sofrimento estava estampado em sua face. Sofrimento elaborado no papel em noites mal dormidas, esquentadas pelo vinho, seu único companheiro porque podia compra-lo com poucos centavos. Nos olhavá-mos. Uma lágrima com a cor do vinho tinto escorreu do olho esquerdo do escritor. Naquele momento senti o horror que é se tornar uma alma negra, morta. Senti mais, senti que minha própria alma também estava morrendo, que estava se tornando negra. Chorei pela primeira vez neste século !
Sobre Todos Nós E Nenhum Deles
Insetos retorcidos pela luz dançaram tangos sobre o balcão. Suas asas de alumínio rasgaram o ar e riscaram os copos dos bebuns sorridentes. Baratas que voaram. Baratas com asas de alumínio, baratas que refletiram a luz distorcida de cores vibrantes ao lado oeste do minuto segundo desgraçado único. Baratas com asas residiram dentro de minha cabeça. Pudim com caramelo elas comiam no dia de todos os Santos Estrumes Sagrados Da Liberação Da Rosquinha Papal. Êxtase brilhante que dilatava minhas pupilas enquanto baratas voavam por ai sem rumo. Fui a morada destes bichinhos. Meu pudim cerebral era o alimento. Baratas com asas nunca precisaram dirigir carroças porque bastava que batessem suas asas de alumínio para que voassem por ai sem rumo. (Sem rumo é minha vida !). Voaram da Lua para Marte, deslizando entre um e outro asteróide colorido que rastejavam no vácuo espacial especial. Baratas que destruíram carros de alumínio do povo trabalhador que não comiam pudim cerebral todo dia. Meu pudim cerebral era o alimento. Alimento das baratas com asas de alumínio que residiram dentro de minha cabeça. Um ninho havia ficado no lugar do cérebro. Cérebro de Pudim. Pudim de caramelo. Amarelinho igual ao pus. Voaram elas surfando entre as estrelas e jogaram cores em meus olhos antes negros que derreteram virando umas bolas iluminadas pela luz ao lado oeste do minuto segundo desgraçado único...
Sinistro Cão De Orelhas Cortadas
O Hades malévolo toma forma no interior de meu ventre hermafrodita corrompido pelos malditos do século XIX. A impureza das formas uterinas se esconde sob carcaças mal cheirosas de cidadãos comuns, ratos covardes, seres desprovidos de vida, nascidos mortos. Não reclamam nunca porque foram treinados para ficar de boca fechada, como boas cadelinhas de madame.
No banco da praça, repleto de desgraçados vegetais ao seu redor, um falso emissário dos céus grita seus dogmas escritos na antigüidade. Frutos abandonados pelo vosso senhor não podem se rebelar, soariam ridículos, neuróticos, esquisitos sem fé na salvação. Então aplaudem o falso emissário mesmo sem nada entender.
Anjos demitidos por Deus e seu sócio Diablo fazem um coro baixinho contra os dogmas. Temos companheiros finalmente ! Vamos a luta ! A batalha será aquilo que os críticos chamam de "guerra madura" ? Sim !!! Sim, dedos nos olhos e chutes no saco não valem, ok gringo ?
Quem ganhar, ganhou !!!
O resto que aprenda como lutar e mãos as obras. Deus e o Diablo se escondem no Planalto Central, é só pegar um ônibus e caça-los como cães sarnentos. Não merecem nosso perdão. Aliás, não somos cristãos para estar perdoando os filhos da puta que nos sacaneiam. Um tiro na testa de Deus e uma peixeirada na garganta de Diablo e as coisas começarão a entrar nos eixos...
E os anjos do congresso ? ... Gasolina sobre seus corpos e teremos a fogueira de São João mais bonita da história de nosso microcosmos maravilha !!!
Para Um Cristão Ler Enquanto Se Lambuza Com Seu Manjar
Um Cristo caminha pela estrada feita de pequeninos bracinhos de ateus. Encontra outro Cristo, beijinho-beijinho tipo selinho, e de mãos dadas partem em busca do Cristo que tudo sabe. Nossos Cristos precisam saber o peso exato do pecado. Procuram a balança sagrada do Cristianismo que acreditam estar com o Cristo que tudo sabe. Vão pesar os pecados da Cristandade. Acreditam também que ficarão ricos se, finalmente, ambos souberem gritar certinho o peso dos pecados dos outros Cristos espalhados pelo mundão. Vão, talvez, fazer um ótimo negócio !
Sou Uma Hiena Estúpida Perdida Dentro De Uma Gaveta Vermelha Na Casa De Um Anão Com Lesões Purulentas Crostosas Causadas Por Estreptococos
Pensei enquanto os gânglios se tornavam flutuantes e o pus era aspirado por sanguessugas de temperamento explosivo. Logo eu sentia alívio e gargalhava fazendo com que se escutasse tudo fora da gaveta. Meu amigo Staphylococcus aureus olhava para os lados, estava procurando o Streptococcus pyogenes do grupo "A" para formar, entre dois a cinco dias, por lesões cutâneas estreptocócicas, a banda Impetigo. Dou risadas de deboche, saudável deboche, pois sei que quem se incomodar terá que fazer uma terapia antimicrobiana sistêmica. Ou então, tentar encontrar os alternativos Cefalosporinas e Eritromicina. Paro de gargalhar quando o anão de pele empodrecida, quase fétida, abre a gaveta e me devora por inteiro, mastigando-me com seus dentes quebrados e engolindo-me com apetite voraz após doze mastigadas. Meus restos pastosos servem de alimento a uma maligna Taenia solium que habitava o intestino irritado do anão que não ingeria, em hipótese alguma, niclosamida. Só parou de me devorar os restos pastosos quando foi picada por uma mosca Tsé-Tsé do gênero Glossina e o Trypanosoma gambiense colocou-a para dormir. No interior da Taenia solium meus restos se tornaram um bolor e finalmente percebi que a felicidade sorria para mim.
Senti que o paraíso era ali !!!
Minimalista Pandeiro Industrial Com Deus No Asfalto Quente
Exclamo ! Escarro ! interrogo ! Carrego armas para fazer a paz ser ouvida em minha cabeça confusa. Imagens derretidas sempre procuram escorrer pelos ouvidos, olhos, buracos nasais e da pútrida boca. Quente. Música quente sai do hidrante. O boi rumina seus pensamentos e aposta na girafa. É neste atual momento que a hiena estúpida perdida dentro de uma gaveta vermelha na casa de um anão seboso vai degustar o cadáver da bela noiva suicida.
Corro ! Grito ! Vôo ! Acompanho comadres putas pelo lar do hibernante senhor feudal. Escorro pelo ralo, mas mantenho-me fiel aos princípios da fome. Meu cão regional atravessou o deserto, comeu areia, nadou no abismo e sua fúria deu origem a palavra Caos. Seu fedor deu a largada aos anais do Cristianismo Necrólatra, responsável pela cultuada santa inquisição inquietante.
Mutilo ! Rasgo ! Pulo ! Vou chutando cabeças de padres degoladas. Os inimigos não possuem rostos, não possuem história, não possuem boa música. No máximo, na hora do estupro, possuem boas mulheres e uns travecas de bunda durinha !!! Mesquinhos, coprófagos sociais que injetam seus ideais na uretra do capacho e alguma droga vagabunda em vosso nariz. Não direi o que são porque não hão de me entender mesmo, mas meu desabafo real ecoará pelo futuro incerto de seres tão inúteis que neste momento aguardam piedade do guru que beija o chão dos aeroportos por onde passa.
Lá estou, lá estive, lá estarei. Nesta mesma ordem, pois, ora se pois, é assim que funciona minha mente e é assim que serei interpretado por esta humanidade que cheira latinhas de ar rancoroso.
Horrorosa humanidade, meu aceno de mão é minha passagem para a liberdade. Estou onde estou, pois somente eu posso estar onde estou. Lisergia não é brincadeira para fracos. Posso ser seu ácido em dias de intenso sol vermelho. Sou tão forte quanto o poder. Sou eu. Eu sou eu. Nada me agride. Sou o que você pensa que é mas que nunca será. Sou o desgraçado que pode ameaçar a humanidade. Sou gentil, sou simpático, sou as armas da paz, sou o horror das guerras. Sou o ser magnífico que nunca precisou da religião e conviveu acima da humanidade junto de outros gênios bêbados e que, no horizonte distante, cravou seus dentes nas juntas imaginárias das pernas do planeta.
E Do Caos Criei A Exuberante Anomalia Cloacal
A criação perdeu-se em sua complexidade. Nadou para os anais do ralo castrador e boiou, boiou e boiou cano abaixo, rumo ao olimpo fecal tão venerado nas missas de domingo que teimam em nunca abandonar a ignorância do homem. Lá, protegida em seu casulo de seda negra, organizou suas células rebeldes e floresceu para o mundo cão. O homem com várias cloacas - sim leitores, cloacas são aqueles orifícios que expurgam merda e mijo ao mesmo tempo - saltou fora do casulo. Estava completa sua metamorfose. Continuaria seu sopro de vida. Os palhaços lotaram as arquibancadas do show da vida para apreciar o ser novo, o incrível homem repleto de cloacas nas costas, axilas, rosto e até no umbigo. O criador incrédulo também compareceu, precisou ver para crer. Suas cloacas exalavam um cheiro doce capaz de fazer com que todos se sentissem de bem com suas vidas medíocres. O homem-cloaca observou todos ao seu redor. Suas cloacas pulsavam, possivelmente excitadas pela estranha veneração do respeitável público. Algo de podre, então, aconteceu no reino de Baiestorf. O homem-cloaca produziu uma curiosa substância de fino trato que transbordava de suas cloacas super excitadas. Enrolou a substância de cor rosa num palito de madeira e ofereceu à uma cria de sorriso automático. A cria olhou a substância produzida pelas cloacas do homem e num único gesto, também automático, levou a massa doce a sua boca. Mastigou confiante e gostou daquilo. O Homem-cloaca defecou algodão doce. O homem-cloaca produziu algodão doce. E seu algodão doce cloacal causou impacto. Era realmente delicioso. Logo todos os palhacinhos estavam comendo mais e mais algodão doce cloacal, como que viciados em mais uma maravilha.
Ao Enforcado Empodrecido Da Praça
Que coisa, quem ousou roubar-me os fungos umbelíferos que cresciam-me entre os dedos ?
Ignóbil larápio, achas que muito tenho para aventurar-me em tua busca, com sapos e hienas a te farejar ?
Tolo mortal da verruga que lhe cobre o olho esquerdo por total e que ofegante arrasta uma giba colossal, não me olhe com tua cara de besta, pois egoísta como sou, arrancarei os fungos da tua mão e será bem provável que junto da devolução obrigatória arrancarei também alguns de seus dedos, já que percebi que você possui dez e dizer-te-ei que não são necessários dez dedos para viver: Três o são suficientemente bons !!!
I. Simples retorno inverso das convenções para o ser de qualquer espécie andar pelas vielas umedecidas pelo corrimento vaginal de um pigmeu hermafrodita que exalta a insignificância de todos os já citados seres e os aproximam das tortuosas seqüelas provenientes da falta de ânimo, qualidade exclusiva dos amantes etílicos !
II. E a viagem é
longa para se ter infinitas alucinações,
Benditas,
Malditas,
Perfeitas para o particular reino do Santo Senhor !
Sou, crê minha protetora que nunca se cala, discípulo do terceiro Sapo que habitou as entranhas plásticas do cadáver do belo sexo que um dia, em eras passadas, almejei devorar em sua total inocência resplandecente !
III. Seguindo viagem rastejei-me sobre a humanidade, banhei-me com almas pútridas e dormi em uma confortável planície de papoulas. Eis que nenhum ser, nem mesmo o pigmeu hermafrodita, ousou aproximar-se, temendo minha indomável fúria, temendo despertar minha suprema ira !
IV. Então a Vida chegou até mim e me presenteou alegremente com sua jovialidade. Molhei minha língua com todos os vícios. Insatisfeito, criei tantos outros vícios e tornei-me agente da Morte, ganhando minha porcentagem em cadáveres de belas jovens...
Depois de explodir uma fábrica de travesseiros, o que fez com que as penas ficassem por meses voando sobre a Cidade Dos Canibais, peguei a poetisa que tem uma fadinha tatuada e travei com ela um diálogo esclarecedor. Comecei dizendo:
"Não queria ter te conhecido !"
"Porquê não ?"
"Porque tu é a mulher que procurei a vida toda !"
Ela sorriu bonito e me disse:
"Você não pode ter se apaixonado por mim tão depressa... Esse tal de amor a primeira vista é invenção dos livros, do cinema, da arte! Você está apenas carente e quer se apaixonar por alguma mulher qualquer porque tem medo de ficar sozinho consigo mesmo. É uma fuga !!!"
Rebati dizendo:
"A paixão é algo mais forte do que a razão, não tenho como evitar !!!"
"Você deveria procurar ajuda psicológica !"
"E isso vai me ajudar a ficar contigo ?"
"Baiestorf, você não vai ficar comigo !"
"Nem no fim da história ?"
"Nem no fim da história !"
"Então posso pintar um quadro conosco, de mãos dadas, olhando o pôr do sol ?"
"Você deveria procurar ajuda psicológica !"
"Talvez no fim da história !"
"Para com isso Baiestorf, fuma um baseado, cheira um pó e me esqueça !"
"Não posso !"
"Não pode o quê ?"
"As duas coisas !"
"Porquê você não pode se chapar ?"
"Consciência social, só isso, desde que me assumi como anarquista decidi que não posso colaborar para que a hipocrisia continue !"
"Que hipocrisia há em fumar um baseado ?"
"Não falo da questão do fumar ou não um baseado, falo da questão ideológica e financeira no ato de acender um baseado ou cheirar pó ou qualquer outra coisa !!!"
"E daí ?"
"E daí que o dinheiro que eu gastar comprando drogas vai servir de sustento à desigualdade social que os políticos, militares, poder judiciário, padres e os ricos desejam manter..."
E a poetisa me cortou o diálogo emendando a minha frase com as palavras dela,
"... E depois sai essa classe-média cheia de dondocas perfumadas vestidas de branco pedindo paz, entendi !!!"
"Hipocrisia pura !", acrescentei.
E depois disso fiquei quieto. A poetisa pegou uma pena que flutuava ao nosso redor e disse:
"Sim, isso eu entendi, mas porquê você não pode me esquecer ?"
"Porque não quero !"
"Bem, se vai se torturar o problema é teu !"
"Sim, o problema é meu !"
E ficamos quietos vendo o vento fazer as penas bailarem. Daria tudo para saber os pensamentos dela e, talvez, ela também daria tudo para saber os meus pensamentos. Pensei em palavras para dizer e tentar conquista-la mas desisti, decidi não forçar a barra, não ficar chateando-a mais com este assunto. E daí que estou apaixonado por ela ? E daí que eu gostaria de ficar com ela ? Todos gostariam de ficar com ela, pois é linda, perfeita, uma flor entre os cactos rebeldes que freqüentam os desertos que cercam a Cidade Dos Canibais. E pensei mais um pouco e me lembrei que ficar sozinho até que não é tão ruim, depois que nos acostumamos até que é divertido, cheio de aventuras onde não temos que explicar nada para ninguém, onde podemos fazer o que der na cabeça e ir até o inferno dar um abraço no Diabo não custa nada. Sorri para ela, peguei-a pela mão e lhe disse:
"Quer beber uma cerveja comigo, conversar sobre livros e, se tiver fome, comer alguns amendoins ?"
E ela sorriu e me respondeu com os olhos brilhando:
"Sim Baiestorf, quero sim !!!"
Souza, bêbado, balbuciou:
"Temos que fazer um filme !"
"Eu Amei Uma Piranha Escrota !" , respondi igualmente bêbado.
Com cerveja escorrendo pela barba, Souza disse:
"Fazer um filme !", para depois de uma tragada de cigarro completar, "Não quero saber destas vadias que tu corre atrás !"
Olhei fixo para Souza, cuspi no chão e dei mais uma bicada no chopp. Voltei a falar:
"Cara, nosso próximo lixo cult vai se chamar..." , e fiz uma pausa para criar um suspense no ar (e para um novo gole na caneca de chopp), e completei logo em seguida a frase "... 'Eu Amei Uma Piranha Escrota' , sobre um retardado físico, que pode ser interpretado por mim mesmo, apaixonado por uma puta feia que cobra quinze mangos cada trepada! E não chama minhas musas de vadias, ok ?"
E me calei. Souza bebeu do chopp dele e ficou pensativo. Me olhou e resmungou:
"Quanto vai custar ?"
Respondi:
"Sei lá... Uns oitocentos reais, sem contar a divulgação !", e cai da cadeira tonto de tanto beber. E ficamos em silêncio por alguns segundos, ou muitos segundos, não sei, nossa noção de tempo já estava fodida. Souza pagou a conta do bar e saímos. Estava chovendo e mesmo assim resolvemos sentar no meio da rua. Depois de uns dez minutos, Souza falou:
"Temos que fazer um filme !"
"Bundamania!", lhe respondi bebendo da cerveja em lata que trazia na mão. Souza gargalhou mediocremente e se levantou tocado pelos dedos das mãos da felicidade e disse:
"Ótimo mesmo... Eu estou sempre a fim de comer uma bunda de mulher!"
E levantamos com certa dificuldade. Notei que estava mais bêbado do que ele. Não consegui dizer nada, mas fui junto com Souza no puteiro mais próximo. Bebemos e trepamos a noite toda, ele com uma gorda horrível e eu, na falta de algo melhor, faturei um travesti sem os dentes da frente cheirando como um limpador de latrinas, com esperma seco grudado no rosto e os dedos da mão esquerda grudados uns nos outros.
De manhã fui direto para minha casa, onde de ressaca escrevi "Eu Amei Uma Piranha Escrota" e "Bundamania" , o primeiro um gore movie violento baseado em "O Suicídio" de Durkheim e o segundo um pornô bagaceiro baseado em nossa noite de farra. Após finalizar os roteiros, que na verdade não passavam de esboços das minhas idéias, liguei para minha equipe-técnica marcando uma cervejada no boteco da noite anterior. Disse-lhes que iria ler uns roteiros prá eles e breve iríamos filmar umas bagaceiradas novas. Todos disseram que estariam no boteco na hora marcada. Desliguei o telefone para sempre depois da última ligação. Bebi o resto de um vinho azedo que havia na geladeira e cocei o saco pensando o quanto era bom ser um cara que produz suas tralhas artísticas sem valor algum só pelo prazer indiscritível de incomodar os outros. Porra, eu estava tão feliz que seria capaz de beijar um padre. Não, acho que não estava tão feliz assim, mas pro diabo com a felicidade, coloquei minha gravata, meu sobretudo e me mandei.
E Agora, Para Algo Poético Completamente Igual A Tudo Que Tu Já Leu
Eu Em Dó Menor
Ergam seus órgãos
empodrecidos para o alto,
Que eu, o todo poderoso, morri em aleluia
Enquanto sapos viscosos eram degustados
Com muito sarcasmo e um pouco de sal
Pela matriarca de meus sonhos delirantes.
Na minha morte a imundície se misturou a desgraça,
Do mesmo modo que se mistura vinho ao sangue de Cristo,
Para alcoólatras se deliciarem
Com tais iguarias oferecidas com a terrível
Benção divina !!!
Ar corroendo corpos sintéticos,
Fogo construindo paisagens abstratas,
Água moldando o desespero humano,
Orvalho enchendo de harmonia o medo,
Neblina cobrindo as beldades artificiais,
Flores imaginárias murchando junto aos sonhos,
Sussurros afagando minha miséria,
Me dopando com o pânico da metrópole
Em um êxtase perdido em meio a monólogos,
Em meio a outros medíocres
E suas vidinhas de vegetais
À espera de alguém para rega-los !
Se me matas
Compreenderás,
Se não,
Se arrependerás !!!
Fui embora com o vento e resolvi
mudar para nunca mais voltar a ver o
dito cujo que ganhou $$$ no dia de seu nome comprido.
Bendito o café que bebi no balcão da farmácia;
Estava bem frio.
Cola. Cola os $$$ no teu nome infeliz.
Joga pedaços de papel no ventilador e vai lá fora brincar na lama
com
limão. Sou teu inimigo desde o raiar do sol. Não vai ser perdoado
por
ter $$$ no nome; Cala-te $$$...
gastrônomicon NÃO PODE VOAR. Então fica por ali e não
se aproxime mais
de meus filhos cafajestes.
Afasto-te $$$ filho da putice !!!
Oriundo Da Insanidade De Baiestorf
Dentro de ti estou...
Gritas de prazer ou dor ?
Debate-se de um lado para o outro,
Por quê ?...
Calma que já vou sair,
Todo molhado
De seu sangue avermelhado,
Pois agora
Sou um punhal feliz !!!
I. O deserto tentou me engolir. Pulei fora e rolei em direção de uma grande e úmida circunferência. Tal circunferência possuía um odor característico fácil de ser identificado. Sim, possuía odor de cu. Era um cu gigante logo abaixo de um imenso deserto de pele e não areia como os bobos imaginaram. Tudo estava claro agora, claro como uma trepada gostosa sobre a relva e eu sempre tive razão: O cu era uma circunferência, portanto, redondo. Beijo o cu gigante feliz porque sempre estive certo e os professores é que estavam errados. O belo cu é redondo !!! Re-don-do !!! Olhando diretamente para o buraco que havia no centro de tão enorme e poderoso cu, vejo uma luz no fim do reto. Fiquei deverás curioso, pensando cá com meus ovos, louco para saber o que poderia haver no fundo do cu, se é que cu tem fundo. Será que no fundo do cu haveriam criaturas monstruosas ? Vermezinhos falantes ? Lombriguinhas dançantes ? Bactérias fecais intelectualizadas pela Globo ? Realmente estou muito curioso...
II. O amor caiu junto da sujeira e ficou sujo. Com um pequeno esforço consegui entrar no cu, ciente que se não conseguir ver as criaturinhas do cu - Culenses ? - finalmente ei de saber o que é aquela luz que brilha no interior do cu.
III. Caminhei sempre seguindo em direção a luz que brilhava no horizonte pomposo. Meus pés afundavam na merda amolecida a cada passo. Cansado sentei num carroço sangrento que havia na tripa grossa. Parecia ser o início de uma úlcera maligna. O sangue meio coagulado, meio líquido, molhou minha bunda. Ironia ou não do destino, mas o fato é que agora havia um cu dentro de um cu, ou seja, meu cu dentro daquele enorme cu solitário no deserto de pele. Melhor um cu dentro de um cu do que um cu com cu. Porém, para minha surpresa, o tal cu gigante possuía vários cuzinhos em seu interior. Suas paredes cheias de ramelas e cascas fecais secas possuíam uma imensa galeria de cus de todos os tipos e variados cheiros. E para espanto geral, aqueles cuzinhos pequeninos falavam. Porra do caralho caralhudo, um cu gigante que tem vários cuzinhos e um cuzão dentro dele. Aliás, tem dentro dele um cuzão com seu próprio cu, perplexo, olhando descaradamente para a parede de cuzinhos falantes. Bem, aproveitarei a oportunidade e farei perguntas, como todo bom curioso deve se portar.
IV. Sentado na úlcera pergunto aos cuzinhos do cu sobre a misteriosa luz que havia a nossa frente. Eles, sempre em coro - depois descobri que todos os cuzinhos faziam parte de um único cérebro pensante e todo poderoso - me respondem que aquela luz é o centro do Universo e que dali surgiu tudo já expurgado para dentro da humanidade. E completam ainda que todos são iguais perante a luz e aqueles que são diferentes são expurgados de volta a humanidade. Pensei: "Porra, eu sou diferente !!! Sou um cuzão humano com um cu e não um cu soberano com vários cuzinhos !". Os cuzinhos gargalham debochando de mim. A luz, o centro de todo o Universo, faz um estrondo ensurdecedor e gases me carregam para fora do enorme cu que havia no deserto de pele. Enquanto vôo para fora do todo poderoso cu que rejeita os diferentes, fico pensando: "Bem que isso tudo poderia se chamar 'O Centro Da Humanidade É Uma Luz Sem Forma Com Pequeninos Guardiões Que Falam Toda E Qualquer Língua' !!!", e no chão caio, batendo minha cabeça no deserto, esfolando meu queixo. Finalmente sei de toda a verdade, mas acho que não irá adiantar nada pois certamente passarei por um profeta do caos enlouquecido e a esmo deverei vagar pela eternidade.
Por Um Bom Motivo Danço Sozinho Até O Sol Raiar
As únicas coisas com as quais gasto dinheiro e não me arrependo são livros e bebida, já o resto não me interessa tanto assim. Eu, um perdedor social que escreve para outros perdedores - já incluindo você que me lê - e que gosta de deixar bem claro que nunca se sentiu amado, mesmo que se torne um destes lamentos repetitivos que enchem o saco daqueles que acompanham minha obra. Digo alto, todas as noites, o meu cala boca Maldoror, cala boca Raskólhnikov, cala boca Bandini, cala boca Chinaski. Não sou tão maldito quanto vocês mas já gritei alto a frase:
"Se o mundo fosse perfeito o Vaticano já teria sido derretido para ajudar a diminuir as diferenças sociais !!!".
Sim, já gritei essa frase alto e ninguém ouviu e os que ouviram falaram baixinho que era melhor não dar atenção para o idiota que gritava sozinho. E naquele dia mesmo fui para a casa de uma quarentona mais ou menos bonita, carnuda não-gorda, de bunda polpuda e seios fartos, uma mulher desiludida com seu casamento e com seu marido. Também, essa mulherada casa com o primeiro cristãozinho estúpido que aparece e depois só decepções: filhos, marido ausente, crises psicológicas, medo da traição e o pior, crise financeira. A terrível crise financeira responsável pelo rompimento dos amantes. E aí elas procuram caras desocupados como eu, que não sou bonito, mas que sou diferente e é essa diferença que faz com que as quarentonas me procurem. Elas estão em busca de uma aventura onde podem trepar e conversar, coisa impossível com seus maridos. E eu fui com todas as quarentonas desiludidas que me chamaram. E conversamos e trepamos e rimos gostoso. E sempre voltei para casa pensando em como as coisas acabam assim, elas com seus maridos vegetais que assistem televisão toda noite, sempre pensando em como conseguir um tempo livre com malditos estranhos diferentes e eu solitário me enchendo de bebida e escrevendo alucinado sobre experiências que simplesmente deveria esquecer, enterrar junto das utopias que persigo para melhorar um mundo que trata os estranhos diferentes como se fossem os novos leprosos. Ateu, Anarquista, Surrealista, Autodidata e totalmente Dadaísta, até dá prá entender porque sou tratado como um leproso incurável. E vamos envelhecendo e o planeta segue seu curso e não mexemos um dedo para tentar mudar as coisas que nos atormentam. E quando nos mexemos para tentar mudar alguma coisa nos imobilizam as ações e amputam nossos braços, pernas, língua, olhos, ouvidos e, como bons malditos, continuamos nos rastejando nas sarjetas sempre deixando nosso sangue, suor, sêmen, saliva, mijo, merda espalhados para sujar a paz do mundo das aparências bem comportadas e limpinhas da sociedade burguesa. E nosso sorriso de satisfação, mesmo após quebrarem todos os nossos dentes, eles não tem como evitar, não tem como apagar de nossas faces felizes, ousadas, incomodas.
Lagostas Bitoladas No Bar Da Praça Celestial
Só para variar um pouco, eram sete da tarde e eu já estava caindo de bêbado. Após beber o resto da cerveja choca depositada em meu copo, levanto-me para dar uma mijada. Provavelmente era engraçado me ver cambalear grogue até o banheiro, pois todos ali no bar me acompanharam com o canto dos olhos. Na porta do banheiro feminino várias mulheres fofocavam sobre seus machos porcos, mas socialmente aceitos. Escuto um grito: "Baiestorf ! Baiestorf !". Olho e uma garota realmente muito linda abana. Aceno de volta e exatamente neste momento noto um cara ao lado dela. "Ótimo !", penso, "Sempre que essas gracinhas estão com algum bosta, me acenam ! Quando estão sozinhas me ignoram como se eu fosse o mais podre dos leprosos !!!". Tudo bem, que garota iria querer sair com um bêbado escroto de trinta anos que só pensa em como incomodar os outros. Uma garota já me disse certa vez, foi a Cris se não me engano, que sou muito abusado e cínico e sarcástico, que vou com muita "sede ao pote !". À garrafa, Cris, à garrafa ! Realmente acho que essas garotas mais novas, que não bebem, pensam que sou uma espécie de tarado alucinado que despe todo mundo com os olhos !!! Bem, se sou isso tenho que me aceitar do jeito que sou, certo ? Certo ? Certo !!!... Certo como o céu é esverdeado nas noites de natal. Entro no banheiro e mijo. Antes de terminar, torço o pé e caio de boca contra o vaso sujo e quebro alguns dentes. O sangue jorrou denso e minhas calças ficam mijadas. Me olho no espelho e começo a rir de mim mesmo. Jogo um dente no ralo da pia. Outro guardo no bolso junto de algumas moedas. Penso em nada; o riso não permite divagações mais elaboradas. Fecho a porta e lavo o rosto. Penso que seria ótimo beber mais uma cerveja. Volto até a mesa onde meus amigos ranzinzas estão. Ninguém nota que voltei com a boca arrebentada, fodida por um vaso sujo. Estavam discutindo, já quase se socando, porque não chegavam a um acordo sobre Schopenhauer ser ou não virgem, porque de mulher estava empatado com todos nós, ou seja, ninguém sabia porra nenhuma sobre elas. Encho meu copo e bebo todo o líquido. A gengiva arde. Acompanho o trote de uma ninfeta com cara de cavalo e penso como seria bom montar nela e gritar, com um facão em punho, "Independência Ou Morte !!!". E fecho os olhos. E estou correndo pelado num canavial que mutila minha carne. Sou um amontoado de carne viva, vísceras e sangue. E os abutres me rodeiam. E ouço hienas gargalhando em todas as doze escadarias que levam ao canavial. E sou o manjar dos animais carniceiros. Dentadas ferozes por todo meu corpo. Sinto a carne rasgar, o sangue jorrar e o cérebro gozar. E penso o quanto estes animais estão se divertindo. E fico feliz por saber que são felizes com tão pouco. E abro os olhos e já sei que não mais existo. Sou o nada. Sou o zero, ponto de partida da satisfação animal. Nada, nada, nada... Penso em nada.
Conspirações Da Sociedade Governamental
Minha irmã adolescente corria em minha direção para me dar um beijo de língua quando pisou em algo que fez um barulho crocante, como nervos quando mastigados. Olhamos para o chão e vimos que ela havia esmagado o olho esquerdo do Papa Católico, suspiramos aliviados ao perceber que ela não havia estragado nada importante. Ao nos abraçarmos senti seus seios duros contra meu peito e lembrei-me de quando tirei sua virgindade aos doze anos. Sentia que nosso amor ainda era forte, cochichei ao ouvido dela que fossemos para dentro da arca de mamãe brincarmos de sadomasoquismo necrófilo, uma brincadeira onde eu a espancava até ela desmaiar, se fingindo de morta, para que eu fizesse tudo com seu corpo ainda em formação. Mas minha irmã falou que agora não, nossa brincadeira teria que ficar para mais tarde, quando nossos pais pudessem se unir a nós. Agora ela queria conversar comigo sobre conspirações governamentais, já que ela e algumas amigas iriam viajar e estavam preocupadas com alguns boatos.
Sentei-a em meu colo e lhe falei que não eram boatos, mas sim fatos verdadeiros e que ela e as amigas deveriam deixar de beber a água servida dentro dos ônibus interestaduais porque o governo colocava nesta água, assim como na coca-cola e na brahma, amebas roedoras de cérebros condicionadas para que se alimentassem exclusivamente da massa cinzenta das crianças e adolescentes deixando-os como queijos suiços. Esse método já havia dado excelentes resultados em sociedades capitalistas mais desenvolvidas, como U.S.A. e Japão, onde a população crescia com o ímpeto de consumir e consumir cada vez mais. Abri, após beija-la no pescoço, uma garrafa de vinho colonial e bebi da garrafa mesmo, foi quando ela escutou explosões na porta de casa e correu para abri-la, eram suas amigas.
Sozinho, vasculhei sua bolsa e peguei um estojo de maquiagem revestido de pele de leão marinho. Pensando na bundinha do presidente da república, na mão esquerda a garrafa de vinho e na direita meu membro latejante, me masturbei até ejacular trinta e oito gramas de esperma dentro do estojo de maquiagem de minha irmã, seria uma agradável surpresa para a maninha tarada, e depois disso fui ao circo de anões que havia chegado a cidade. Queria rir um pouco, queria me divertir um pouco, queria avistar pessoas desgraçadas felizes com o espetáculo único proporcionado por anões inventivos. E fui e me diverti como um pirralho louco que ganha todas as bolinhas de gude de sua vizinhança.
Último Momento De Amor Em Família
Em tempo recorde ele atravessou o pântano das ilusões capitalistas carregando uma mesa de cozinha nas costas. Seus pés estavam cheios de feridas, pústulas de pus explodiam a cada novo passo, seus olhos ardiam e via tudo embaçado não conseguindo mais distinguir muito bem as coisas, seus braços já haviam atrofiado por terem sido mantidos sempre na mesma posição e, acreditem, ele tirava sua força para continuar justamente de seu cansaço. Não queria, nem podia parar. Uma força que fugia das explicações convencionais o forçava a continuar sempre em frente, sempre rumo ao casebre que ele havia avistado a três anos e vinte e sete dias. E antes mesmo que se desse conta, chegou até a porta podre do casebre. Percebeu que o silêncio ali era perturbador, nem barulho do vento, nem o canto dos pássaros, nem o rastejar de uma larva. Nada. Silêncio absoluto. Bateu na porta, ninguém veio atende-lo. Esperou cinco anos exatos até que a porta se abriu e uma linda mulher de setenta anos incompletos com duzentos e treze quilos lhe comprimentou sorrindo, parecia dizer com aquele sorriso desdentado que o havia esperado desde o princípio da criação do planeta. Se apaixonaram, transaram por doze meses e quatro horas e vinte e noves segundos sem parar nem para comer. Se alimentava do amor que sentiam um pelo outro e ao final de dez anos já haviam concebido quatro pares de gêmeos, meninas, meninos e um hermafrodita genial em equações matemáticas.
No final do mês de outubro do ano de plantar sapos reais, a mulher adoeceu e antes mesmo que pudessem saber que doença lhe devorava as entranhas, morreu de hemorragia interna, cuspindo sangue entre orações fanáticas. Ele, que lhe jurou amor eterno, ao vê-la padecer sentiu que não possuía mais razão alguma para continuar vivendo. Deu banho em seus filhos e vestiu-os com ternos negros dos pés a cabeça e após e enterro da mãe-mulher, colocou sua prole em fila indiana defronte um carvalho onde se enforcou com o cinto de seu roupão pós-banho. As crianças se entreolharam com expressões sérias carimbadas em seus rostos. A primeira coisa que fizeram foi se livrarem dos ternos, pois como todas as crianças eles também odiavam andar bem vestidos. Depois separam-se em dois grupos. Um deles desenterrou a mãe da tumba e o outro desceu o corpo ainda quente de seu pai da árvore. Levaram os dois cadáveres para a cozinha do casebre onde deram banho nos dois e depois os descarnaram. Salgaram as carnes de seus pais e atravessaram o pântano das ilusões capitalistas em busca de seus avós paternos, sentiam que precisavam de amor, amor de família, amor este que eles sentiam escapar a cada naco de carne que comiam durante a travessia.
Um Treponema Pallidum Mutante Atrapalhando A Vida Amorosa De Um Xanthorrhoea Australis Apaixonado
I. Echinocereus Grusoni e Opuntia Erinacea, duas formas comuns do deserto infinito que cercava a Cidade Dos Canibais, observavam a euforia contagiante do senhor Xanthorrhoea Australis que finalmente havia conquistado o coração de sua amada Welwitschia Mirabilis, a musa que povoava os sonhos eróticos de praticamente todos os habitantes do imenso deserto. Xanthorrhoea sentia que amava com sinceridade a famosa musa de longas folhas com franjinhas muito bem cuidadas nas pontas. Gritava versos poéticos para quem quisesse ouvi-lo falar de amor. Dizia a todos que iria se banhar no néctar do amor e definia néctar do amor como lágrimas, suor, saliva, fluídos vaginais lúbricos, urina, sangue e fezes da amada. E Welwitschia retribuía o amor que recebia. E tudo teria sido uma fabulosa história de amor se o pastor Syphilus não tivesse bebido fleuma de maneira exagerada no jardim tomado por Helianthus Annuus. Syphilus bebia enlouquecido porque os deuses recusaram-se a torna-lo um inseto díptero com aparelho bucal pungitivo. Bebia também porque recentemente havia descoberto que era portador do raríssimo Treponema Pallidum mutante, um espiroqueta ativamente móvel, delicado e de fino trato, cujo corpo havia ficado verde e agora possuía uma probóscide longa e flexível, formando numa das extremidades uma pequena anomalia de curiosidade impar, ou seja, uma mistura de Treponema Pallidum comum com o formato de uma Bonellia Viridis. Completamente louco, esbravejando palavrões contra os deuses, o pastor Syphilus avistou o apaixonado Xanthorrhoea e, colocando seu pênis duro de aparência litóide para fora das calças, estuprou o grosso tronco do senhor Xanthorrhoea, escandalizando a sensível Vallisneria Spiralis com a violência gratuita de sua fúria sexual. Também se vingava de todos os apaixonados pois, na sua condição de pastor, odiava com todas as forças as criaturas que amavam. Esse ódio contra os apaixonados era uma virtude necessária à todos os candidatos ao clero dos padres-pastores ao que Syphilus pertencia. Após o gozo infectado de milhares de Treponemas Palliduns mutantes, o pastor Syphilus guardou seu membro dentro das calças e, devorando os frutos de um Opuntia Ficus Indica, foi se afastando do Xanthorrhoea desmoralizado a procura de outros Polizóicos como ele, pois já estava cansado de ser um bêbado solitário. Echinocereus Grusoni e seu inseparável amigo Opuntia Erinacea se entristeceram com o choro descontrolado do senhor Xanthorrhoea, agora infectado e que cujas lesões primárias, todos sabiam, iriam começar a se manifestar dentro de alguns poucos dias. Xanthorrhoea também sabia que essa maligna infecção iria afastar dele a musa Welwitschia, já que apartir deste momento não poderia mais se relacionar carnalmente com ela. No seu interior os Espiroquetas se moviam pelos vasos linfáticos. Catervas de Espiroquetas infectando toda a inocência do pacífico senhor Xanthorrhoea, que naquele momento olhou para o horizonte e enxugou suas lágrimas ao reparar que um bilhão de Nocticulas Scintillans flutuavam rumo ao céu. Sensibilizadas pelos atos desenrolados em terra, resolveram que era hora de abandonar os oceanos e disputar o universo com as estrelas. A guerra estava declarada, o caos ectrótico de boas ações começava a tomar forma e planejava conspurcar a estrutura de todas as coisas já catalogadas e de tantas outras completamente desconhecidas.
II. O vento fazia com que a areia do imenso-infinito deserto que cercava a Cidade Dos Canibais rodopiasse no ar, criando uma espécie de balé sereno para se apreciar numa tarde de nostalgia bem pensada. Pápulas de pus haviam tomado conta do caule do senhor Xanthorrhoea Australis. A psoríase ingüinal incomodava-o. Recidivas mucocutâneas infecciosas se manifestavam por todo seu corpo. Xanthorrhoea estava mudado, havia se tornado uma criatura pessimista ao extremo. E tudo só piorava. Xanthorrhoea era alérgico a penicilina e o estearato de eritromicina não havia feito melhora alguma. E o pior, sua musa amada quando soube da doença adquirida, se afastou. Para não parecer preconceituosa, Welwitschia Mirabilis começou a fazer faculdade numa duna vizinha e disse para o desgraçado Xanthorrhoea que ela não tinha mais tempo para ele e para sepultar de vez as esperanças, acusou-o de ser muito crítico. Poderiam ainda serem bons amigos, disse ela com um sorriso amarelo nos lábios enquanto tratava de fugir da vida de Xanthorrhoea. Sem perspectivas de curar sua moléstia, Xanthorrhoea conheceu o químico Albert Hoffmann e sua maravilhosa descoberta, o LSD 25. Este ácido soberbo que é o núcleo químico comum aos alcalóides do fungo do centeio, também conhecido como Claviceps Purpureus, um parasita boa-vida que suga as posses dos caules das gramíneas de classe-média. As viagens lisérgicas ajudavam-no a esquecer da doença e, principalmente, esquecer de Welwitschia. Além do LSD 25, Xanthorrhoea tornou-se dependente da mescalina extraída do Lophophora Williamsi, da psilocibina extraída do fungo Stropharia Cubensis, da teonanacalt carne de deus e sua polpa de substâncias mágicas que lhe causavam sensações visuais extasiantes. Por essa época também experimentou todos os derivados da Papaver Somniferum a que teve acesso graças ao seu amiguinho maluco, doutor Hoffmann. Com o corpo apodrecendo e sua amada longe, o senhor Xanthorrhoea precisava manter seu cérebro ocupado para não sentir a dor física e emocional que o dominaram ao mesmo tempo. Seu cérebro trabalhava o tempo todo, estava já a três meses sem dormir. O uso das substâncias alucinógenas ajudavam-no a enganar seu cérebro crítico em demasia, segundo sua musa, lógico. Cérebro esse irrigado por milhões de vasos sangüíneos bastante complexos que lhe fornecem continuamente glicose e oxigênio consumidos por suas células. Normalmente outras substâncias não chegam até os tecidos naturais porque são impedidas por uma barreira natural que, vejam só, não consegue barrar as substâncias psicotrópicas tão necessárias para que Xanthorrhoea esquecesse do mundo. Talvez ele estava tentando, inconscientemente, destruir todos os seus neurônios para acabar totalmente com a produção do complicado processo metabólico que, como resultado final, se apresentava sob a forma da razão, consciência e percepção. Para o sarcástico doutor Hoffmann, o senhor Xanthorrhoea e todos os estúpidos animálculos em geral eram eqüiponderantes em suas pesquisas. Xanthorrhoea, num pequeno momento de lucidez, olhava a batalha celestial que as bravas Nocticulas Scintillans estavam travando com as estrelas para dominar o universo. O brilho intenso da batalha produzia no deserto um pôr de sol amarelado e fazia com que todos os habitantes se perdessem em seus devaneios solitários.
III. Nuvens negras anunciavam uma tempestade de neve gelatinosa para os habitantes do deserto. O senhor Xanthorrhoea Australis, já acostumado com sua condição de eterno perdedor social, se divertia olhando os incríveis Anelídeos que lhe sugavam o vurmo de suas feridas pestilentas. Suas veias mesentéricas haviam começado a cantar uma suave canção para anunciar o retorno do doutor Hoffmann que, já faziam vinte e oito dias, havia partido para a Cidade Dos Canibais em busca de seu colega Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim que estava tratando casos de Syphilis Sive Morbus Gallicus com mercúrio, um metal que ele conhecia de suas experiências com alquimia. Hoffmann e Von Hohenheim chegaram até Xanthorrhoea no mesmo instante que os primeiros cubos de neve gelatinosa caiam das nuvens negras cheias de fúria raivosa acumuladas. Von Hohenheim, tão logo colocou seus olhos de vidro no paciente, já aplicou também a primeira dose de mercúrio nas feridas. O grau avançado das purulências causadas pelo Treponema Pallidum faziam necessária uma cirurgia urgente. Von Hohenheim mandou Hoffmann aplicar uma dose extra de LSD 25 e, coçando sua enorme barriga de bebedor de cerveja boêmio, cantarolou "Cortar o que é mole, serrar o que é duro, ligar o que está sangrando. A beleza da enérgica simplicidade; já diria meu companheiro de copo maistre barbier chirurgien Ambroise Paré". E colocou-se a cortar, serrar, ligar, amputar e desmembrar os tumores do senhor Xanthorrhoea, que neste momento estava completamente absorvido pelos delírios do fantástico LSD 25. Por toda a extensão de seu mesocéfalo os delírios tomavam a forma de visões extremamente pessoais. Seu encéfalo, principalmente a região onde se encontra o bulbo raquidiano, se emocionava com uma Welwitschia distorcida. Em seus delírios compostos de cores desbotadas berrantes, ele sentia o desespero indiscritível de um lucíola que padecia de limoctônia e percebia o quanto sua musa Welwitschia se divertia com o sofrimento alheio. Delirava com o fato de que após a cirurgia de Von Hohenheim ele iria se tornar um viciado hipospado e gargalhava solitário ao perceber que haviam criaturas mais infelizes do que ele, como o Stegomyia Fasciata com o ferrão em forma de saca-rolhas, ou como o Palaemonetas Serratus atacado por Miosite Clostridias, ou ainda, como a lendária Lampetra Fluviatilis e seus folículos pilosos tomados por milhares de Demodex Folliculorum. Todos esses amaldiçoados pela natureza sofriam muito mais do que ele. As nuvens negras haviam sumido, a neve gelatinosa começava a derreter, vários Buthus Occitanus bebiam chopp acompanhados de suas respectivas Latrodectus Mactans maliciosas e Von Hohenheim lavava suas mãos, a cirurgia estava concluída e parte dos problemas do senhor Xanthorrhoea resolvidos. Duas semanas após a operação, doutor Hoffmann e Von Hohenheim chegaram a ilação de que o paciente já estava completamente recuperado. Echinocereus Grusoni e Opuntia Erinacea sorriam aliviados pela melhora do amigo. Xanthorrhoea correu até a musa Welwitschia para contar a novidade, mas quando seus olhares se cruzaram ele pensou que seria melhor ficar calado. Apenas disse a Welwitschia que ela devia parar de fazer as criaturas se apaixonarem por ela para depois abandona-los somente acompanhados por seus temores e fraquezas. Amar era o pior dos sentimentos para um perdedor nato como ele e que agora havia aprendido a lição e, pensava, nunca mais iria se apaixonar novamente. Iria se tornar um peregrino sem destino e tão logo acabou de dizer essas palavras que vinham sinceras de seus neurônios, virou-se de costas para sua amada e partiu para lugar algum. Chorando pelo amor destruído, olhou para o céu e percebeu que as Nocticulas Scintillans estavam retornando, derrotadas em suas batalhas pela posse do universo, para os oceanos. Percebeu que a sua volta só haviam perdedores sociais, então resolveu sentar-se no jardim das Helianthus Annuus onde iria permanecer por duas dezenas de horas, pensando em como unir todos esses perdedores e construir um novo sistema social. Sim, o senhor Xanthorrhoea iria manter seus neurônios ocupados, começava a perceber que os derrotados poderiam, enfim, criar o tão almejado caos ectrótico de boas ações tão almejado pelas Nocticulas Scintillans. Um senhor Xanthorrhoea revolucionário acabava de nascer.
Depois De Tanto Tempo Uma Luz Transforma-se Em Pigmentos Cheios De Idéias
Pausa.
Pausa para você refletir, meditar, se iluminar.
Não me culpe, culpe a sua falta de cultura por não saber que existem sensações novas à serem exploradas, sentidas, analisadas por cérebros pensantes. Sua falta de interesse em aprender mais, em se viciar em informações, esbarra na sua condição inconsciente de ser humano preguiçoso milenar que não faz o simples esforço de apanhar um dicionário na prateleira para aprender divertindo-se de criar destruindo-esculhambando novas velhas palavras. E você que ainda acha que guitarras elétricas gostam de serem tocadas por varetas de violinos, sente-se no chão de pijama e chame um garçom para liberta-lo de seu trabalho escravo e responda para sua musa:
"Já que não vamos ficar juntos, me vê aí dois quilos de inspiração !!!", e caiam na gargalhada, bebam rindo gostoso enquanto coloco umas músicas da French Girl na vitrola e pau nos boys !!! Tente explorar novas sensações ligando alguns neurônios nos miolos e deixe de pensar de maneira pré-determinada e sinta uma cascata de idéias se formando por toda extensão do corpo que treme igual gelatina para regurgita-la sobre papéis, palcos, ruas, circos, equipamentos eletrônicos funcionais e o que mais cruzar na frente.
E eu ficarei quieto olhando seus progressos, dizendo:
"O palco precisa ser uma plataforma oval depositada no meio, exatamente no meio do público para que o som acústico dos instrumentos flutue entre a platéia causando novas sensações aos ouvintes dos poemas gritados pelo ex-vocalista agora cheio de palavras querendo sair !"
E a música criada pelo The Residents vai servir para criar o clima necessário para o quadro seguinte ficar perfeito: Balões de ar escavam túneis com a rapidez das toupeiras, agilidade silenciosa das minhocas, fazendo buracos no chão para convencer os humanos a não constituírem famílias, uma convenção social que já destruiu milhares de artistas de vanguarda. Isso me faz lembrar que quando me declarei apaixonado pela musa da fadinha tatuada me dei conta de que estava torcendo para que ela me mandasse ao inferno, pois exatamente este sentimento de perda é que abastecia meu cérebro não-linear com munição para criar obras dos mais variados gostos e consistências. Estar vivendo com alguém é abdicar de sua liberdade criativa, é ser um castrado mental e só percebi isso quando fiz a declaração de amor. Não quero amar, quero criar, transformar o nada em arte visceral.
Experimentar !!! Experimentar !!!
Experimentar !!! Experimentar !!!
O problema é de onde prover a inspiração !!! A falta de inspiração é a maior tortura para um ser verborrágico da minha espécie. E só tenho inspiração do método mais difícil, preciso arranjar uma musa maravilhosa, me apaixonar e aí me sentir pequeno, rejeitado, odiado por tão magnífica mulher e aí crio por meses seguidos me aproveitando desta fonte de inspiração que é o amor não correspondido. E exploro toda dor que sinto, ou que, penso com sinceridade sentir.
Porque sou assim ?
Boa pergunta, muito boa mesmo, tão boa que, creio, não há uma resposta satisfatória para ela !!!
Pausa.
E bebo, bebo porque não sou amado ou não sou amado porque bebo ? Acho que é a mesma coisa que aquela dúvida humana do "Deus criou o Homem ou o Homem criou Deus ?".
Pausa.
Hippie Hippie Urra !!!
Hippie Hippie Urra !!!
Experimentar !!! Experimentar !!!
Experimentar !!! Experimentar !!!
É o fim !!!
É o fim !!!
Um Pouco Sobre A Vida Do Autor
No carnaval de 1974, meus pais (bêbados como duas hienas irracionais) copularam nos banheiros sujos do salão municipal de Palmitos e nove meses depois, dia 13 de Novembro, nasci das entranhas de minha mãe impregnado de sangue, urina e placenta. Não chorei. Nascer foi a maior violência que já senti praticarem contra mim, um verdadeiro choque de horror do qual tento me recuperar até hoje, uma piada de mal gosto que não pretendo repetir com nenhum ser. As primeiras palavras que ouvi, ainda na enfermaria, saíram da boca fétida de uma freira gorda que cheirava a salame frito que perguntou a minha mãe:
"Como é o nome dele ?"
"Petter Baiestorf !!!" , lhe respondeu minha mãe com um sorriso idiota nos lábios característico em todas as mulheres que acabaram de parir.
"Com este nome artístico o que será que ele vai ser quando crescer ?"
"O primeiro astronauta brasileiro !", pensei na ocasião.
Minha infância e adolescência foram normais, diria até sinônimo de tédio absoluto com uma grande vontade de praticar suicídio. No pré-escolar travei contato com a religião cristã e foi ódio a primeira vista, não conseguia entender como alguém tão falso, mentiroso e ignorante como o padre poderia ser tão respeitado. Foi nesta ocasião que rejeitei o batismo, outra violência que praticaram contra minha liberdade. Aos dez anos comecei a me interessar pelo físico feminino, quase uma obsessão, então passei a acompanhar minhas primas maiores em banhos de sol e de rios. Coxas, bundas, peitos, cinturas finas, cabelos longos, lábios carnudos, unhas compridas, me deixavam excitado. Acabei virando objeto sexual nas mãos de minhas primas e amigas que estavam na idade das primeiras experiências e treinavam comigo, um pequeno imbecil curioso à disposição. Foi o verão embrionário na criação de um tarado que sentia profundo desgosto pelo Estado, nojo das religiões e se apaixonava por todas as mulheres com as quais conversava.
Na adolescência, quase adulto, aconteceu o pior. Constatei que sempre que eu encontrava uma mulher bonita e inteligente (algo raro) ela já estava comprometida com algum cara completamente ignorante que não merecia nem sequer lamber minhas frieiras. Mais ou menos por essa época comecei a ler e assistir todos os livros e filmes que encontrava pela frente. E descobri os movimentos de vanguarda, coisas como surrealismo, dadaísmo, situacionismo, a música punk, ritmos industriais e experimentais, teatro do pânico e pela primeira vez me senti feliz. Descobri bandas de gore grind, o mundo dos fanzines, livros anarquistas, as produções de cinema underground e percebi que poderia criar minha própria obra e então dei vazão as minhas neuroses.
Em 1990, mais ou menos, comecei a juntar um grupo de adolescentes desajustados ao meu redor e criamos a Canibal Produções. E, desde então, criamos fanzines, filmes, bandas, livros, jornais poéticos e tudo mais que desse vontade de fazer. Minha intenção de criar obras gore-escatológicas misturadas a questões sociais com um pano de fundo surrealista-dadaísta começava a tomar forma e rendia bons resultados. E seguimos tentando evoluir dentro de nossas condições independentes, pois nunca, em hipótese alguma, aceitamos colaboradores que fugiam daquilo que procuramos. E assim, batendo a cabeça contra todas as rochas que encontramos pela frente, fomos criando um universo Kanibaru bastante particular e inédito, em se tratando de Brasil.
Então que, em 2002, me apaixonei e fui magoado pela mulher que amei e entrei num transe de loucura extrema. O médico da cabeça que me acompanhou desistiu de mim. Os padres que mandaram para falar comigo foram convertidos ao anarquismo. E os bares de Palmitos passaram a fechar mais tarde. Desolado continuei escrevendo, filmando, devaneando com minhas alucinações e me amaldiçoando por não ter coragem de meter uma bala em meu próprio crânio que, esfacelado, iria virar um chafariz esguichante de cérebro cinzento, meio mole, meio duro, totalmente melequento.
E em 2004 o pior, voltei a me apaixonar, desta vez por uma poetisa fantástica, mas já comprometida com outro sofredor da espécie humana. Não havia nada há fazer, pois então que, com um bom lote de garrafas de vinho, me tranquei em meu quarto para criar este livro que você acabou de ler, fruto de minha existência medíocre e da minha falta de perspectivas quanto a um relacionamento amoroso sério com a mulher que amo e que me inspira a escrever mais e mais. Sério, antes de conhece-la eu estava com um bloqueio criativo, não conseguia escrever nada (a única coisa que escrevi antes de conhece-la, isso entre 2002 e 2004, havia sido o livro "Manifesto Canibal" [Ed. Achiamé] e, ainda, escrito/elaborado à três mãos [sim, mandei amputar minha mão direita para sentir o olhar de desprezo e o preconceito da sociedade para com a classe dos mutilados] com o Cesar Souza, companheiro de copo, burradas e tormentos sociais.) e após conversar com ela, talvez pela tristeza indiscritível que ela despertou em mim, consegui voltar a criar automaticamente, de um único impulso, deixando as idéias fluírem em jorros sobre o papel.
E agora ?
Agora que venham as novas frustrações para que eu possa rir mais um pouco de mim mesmo. Rir de meus sentimentos é o remédio mais barato que já encontrei para curar minhas neuroses e, pelo visto, o único que realmente funciona ... Ou não ? O aniquilamento de meu cérebro é apenas uma questão de tempo, cruzem os dedos e torçam, tenho certeza de que conseguirei desmancha-lo, apaga-lo, derrete-lo, deleta-lo, extingui-lo para todo o sempre.